sábado, 29 de agosto de 2009

Como construímos a sombra humana

Durante a leitura deste texto mantenha presente apenas esta imagem: um recém-nascido é capaz de ir da raiva mais agressiva até um estado de alegria eufórica em menos de dois minutos!

Imagine que quando nasce você é um castelo. Um castelo com mais de duas centenas de aposentos! Possui uma cozinha da generosidade e um salão do egoísmo. Uma cave da maldade e um quarto da bondade. Uma sala da amizade e outra da traição. Possui ainda aposentos de inteligência, amor, humildade, paz e respeito. E possui aposentos de estupidez, ódio, arrogância, guerra e desprezo. Muitos aposentos e todos eles úteis no momento certo. Os adultos à sua volta deveriam ensinar-lhe quando é apropriado visitar cada um dos aposentos. Deveriam dizer-lhe que possui aposentos que muito provavelmente nunca sentirá necessidade de visitar, e outros que lhe serão úteis inúmeras vezes, à medida que passeia pelo seu castelo.

O que acontece na realidade é isto: um dia visita o aposento do egoísmo e um adulto diz-lhe que esse aposento é feio. E você fecha a porta e atira com a chave. Algum tempo mais tarde visita a sala da bondade e outro adulto bate palmas e diz-lhe que essa sala é muito bonita. E você decide que irá passar muitos dias aí, mesmo que isso signifique sacrificar uma grande parte de quem é. Noutro dia visita a cave do desprezo. E outro adulto, que vê a sua visita, diz-lhe que essa cave é má! E mais: se você insistir em visitar essa cave novamente será punido! E você fecha a porta e atira com a chave dessa cave!

Por volta dos oito anos encontra-se a viver em cerca de 10 por cento dos aposentos do seu castelo. Aos vinte anos vive num T2, dentro do seu castelo!

Isto é o que acontece a todos os seres humanos! Exceptuando os muito poucos que foram educados por pais verdadeiramente iluminados que compreendiam o ser completo que você era, e é!

Durante os primeiros quarenta anos da sua vida, aproximadamente, irá fechar aposento atrás de aposento. Limitar-se-á mais e mais. Porque, ainda por cima, ensinaram-no a não correr riscos, a procurar a segurança da rotina, nem que sacrifique mais um pouco da sua vida e de quem é!

Por volta dos vinte e poucos anos começa a ter problemas com os aposentos que fechou. E ensinam-lhe a decorar afirmações positivas e a recitar mantras como solução! Isto é o mesmo que viver numa casa que está a cair e você, num acto louco, decide pintar a casa de rosa, para criar a ilusão que a casa é nova em folha! Claro que ela irá cair!

As afirmações positivas são boas, deliciosas na verdade. Mas primeiro verifique o que está escondido na sua mente! A sua sombra, aquilo que você “não é”, os aposentos que se esqueceu já que existem. A maior parte dos nossos pensamentos são projectados a partir do subconsciente. Chamo-lhe a “voz da caixa da sombra”. O que temos nos pensamentos das pessoas que recitam afirmações positivas é um monólogo parecido a isto: “Eu amo-me e aceito-me tal como sou... (sorriso) Olha-me para aquele velho que não vê para onde vai, o estúpido!... Eu sou um com o Amor Divino (mais um sorriso)... Odeio esta gente que fuma e não tem respeito pelos outros! Javardolas!... Eu perdoo todos os que me magoaram... Agora, como é que posso estragar o dia ao palhaço do meu colega?... Meu Deus, esta dor de costas não me larga! Será que é alguma coisa grave?... A minha mãe deixa-me com os nervos em franja! Se ela hoje me diz que preciso de mudar de vida outra vez, mato-a!... O dinheiro vem a mim facilmente... Eu não posso focar a atenção no que não quero! Eu amo-me e amo os outros... (outro sorriso, mas menos convincente) Estou outra vez atrasado, raios!

O problema real é que não nos apercebemos sequer do diálogo que coloco aqui a itálico! É o diálogo que vem da sombra e que nem nos apercebemos! Excepto se começarmos a prestar verdadeira atenção aos nossos pensamentos. Sei do que falo por experiência própria.

Ainda não encontrei uma pessoa que pratique “pensamento positivo” que esteja verdadeiramente de bem com a vida! Que esteja verdadeiramente entusiasmado e apaixonado pela vida. Há aquelas pessoas que se esforçam tanto por mostrar que isto funciona, mas basta picar as suas sombra e vê-los a espernear! É giro! E assim lá se expressa o meu lado sádico de uma maneira pouco saudável! (Eu sei que há essas pessoas, com uma vida fantástica porque recitavam continuamente afirmações positivas, existem! Conheço inclusive alguns dos livros, que podem ser uma ajuda preciosa para acordar – mas para a maioria dos mortais é só isso: servem para acordar).

Há ainda pessoas que fazem muita meditação e paz e amam tudo e todos... E depois alguém trata-os abaixo de cão! Ou são vítimas de violência física... E lá cai por terra a teoria da Lei da Atracção! (Eu também já acreditei nessa teoria – infelizmente está incompleta).

Será que você seria capaz de matar, de atraiçoar, de mentir? Claro que sim! Em dois minutos mostro-lhe uma situação em que o faria sem pensar! Há em nós uma coisa que se chama “instinto de sobrevivência” o qual ultrapassa, fisicamente, a mente consciente, os nossos preceitos morais e todo o lixo mental acumulado, e simplesmente entra em acção.

O problema para muitos pais é como explicar a um filho em que situações o seu medo, estupidez, arrogância, egoísmo, maldade e inveja, para nomear apenas alguns dos comportamentos humanos “negativos”, podem ser úteis.

Dediquem algum tempo a estudar isto. Vejam em que situações ser mau pode ser bom.

Eu podia dizer-lhe, mas se o fizesse como ganhava a vida? Há um avarento que precisa de viver, aqui dentro de mim. E esse avarento gasta muito dinheiro com livros, workshops, seminários, viagens cansativas... E quer a sua recompensa! Mas prometo-lhe que se participar num seminário dedicado à Sombra a sua vida começará a mudar.

Para terminar: nós passamos os primeiros 40 anos da nossa vida a acumular sombra. E os restantes a tentar recuperar essa sombra. Os ingleses chamam-lhe “midlife crisis”. Os Sábios chamam-lhe a “noite escura da alma” – uma idade em que perdemos a segurança numa área da nossa vida que nos é querida. E isto acontece por um único motivo: Aquilo que tu não queres ser não te deixará ser.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A Projecção de Pais para Filhos

Há algum tempo atrás tive a oportunidade de trabalhar com um homem que não falava com o filho havia mais de 10 anos. O motivo era, aparentemente, trivial: o filho era muito mentiroso.

Pela maneira como este senhor reagia ás mentiras do filho era óbvio que estava a projectar o seu aspecto rejeitado de mentiroso. Nós só reagimos de maneira inapropriada aos comportamentos dos outros quando estamos a projectar. Ou seja, quando vemos no outro um aspecto que rejeitamos, negamos ou deserdamos em nós. Quando afirmamos alto e bom som “Eu não sou assim!”.

Depois de mais de uma hora a trabalhar com este senhor não conseguíamos ver de que maneira ele mentia (e ele tinha que estar a mentir ou não teria a reacção que tinha em relação ao filho). A sua esposa olhava de vez em quando para mim e acenava com a cabeça afirmativamente. Cansada das minhas perguntas disse-me sorridentemente: “olhe que é verdade. Conheço o meu marido há 32 anos e ele nunca disse uma mentira, nunca!”

Não acreditei. Eu conseguia ver mentira nele, era a sua máscara social, e no entanto não havia lugar na sua vida para a mentira! Eventualmente contou-me que era empresário por conta própria. Num momento de pura intuição atirei-lhe com mais uma pergunta: “declara todos os seus rendimentos ao estado?”

Foi engraçado ver a reacção deste senhor. Corou muito, ficou agitado, e de braços no ar respondeu-me: “Isso é um tipo de mentira muito diferente, meu jovem!”

Isto é o que acontece com a nossa sombra. Fazemos precisamente aquilo de que acusamos os outros, mas no nosso caso não conseguimos ver as coisas da mesma maneira, são diferentes.

Depois pedi-lhe que me desse dois exemplos em que mentir poderia ser útil a uma pessoa. Ele não conseguia ver nenhuma utilidade na mentira. Propus-lhe uma situação: imagine que tem um filho de 12 anos que passa muito tempo a falar com um amigo na internet. Eventualmente o seu filho descobre que o “amigo” em vez de ter 12 anos tem 45 e é pedófilo. Se o seu filho mentisse e dissesse que na realidade tinha 40 anos, era agente da Policia Judiciária e sabia onde o “amigo” vivia?... Esta mentira poderia ou não ajudar o seu filho e ainda outras crianças?

Ele conseguiu ver o meu ponto de vista (e podem imaginar o meu suspiro de alivio!). A seguir informou-me que afinal não falava com o filho mas era mais porque ele era um burro. Podia estar a trabalhar com o pai num negócio de sucesso, e em vez disso estava a trabalhar como segurança numa empresa a ganhar uns tostões.

Nesta situação não esperei para que ele visse de que forma era burro. Passei logo à pergunta: de que forma ser burro pode ser útil? E aproveitei para falar de mim. Eu sou burro, sou mesmo muito burro. E tinha tanto medo que outros descobrissem a minha burrice que me ‘matava’ a estudar! Foi o burro em mim que fez com que adquirisse um gosto pela leitura, pelo conhecimento. E foi curioso o que sucedeu. Este homem, corpulento e bem sucedido, começou a chorar. Quando era criança o pai chamava-lhe burro quase diariamente. Ele jurou a si mesmo que havia de mostrar ao pai quem era o burro! E devido a esse insulto deu o seu melhor e criou três empresas de sucesso! Mas o choro era por outro motivo: ele fizera ao filho exactamente a mesma coisa que o pai lhe tinha feito a ele!

E aqui surge a oportunidade de começar o processo de curar as nossas feridas emocionais. Quando começo a ver os presentes que existem nos dramas da minha vida e dou início ao meu perdão e ao perdão dos que me magoaram.

Aconselho os pais a fazerem este exercício antes de apontarem o dedo a um filho. Descubram quais os defeitos que vêem no filho. Vejam depois de que maneira fazem a mesma coisa, ou têm o mesmo comportamento. De seguida perguntem-se se há algum benefício a resgatar (há sempre).

Antes de acusar um filho de um comportamento “errado” estude muito bem qual o aspecto positivo desse comportamento.

Tenha em atenção ainda o aspecto oposto! Por exemplo, pode ter um filho extremamente preguiçoso que lhe está a mostrar a sua sombra. Mostra-lhe que você não dá a si mesmo tempo para relaxar e desfrutar um pouco da vida. Esta atitude é comum em crianças cujos pais são muito ocupados e com o tempo bastante preenchido. A criança está apenas a mostrar o que poderia estar disponível ao progenitor se se permitisse algum tempo a fazer nada. Neste caso, fale com o seu filho sobre a preguiça. E não diga que as crianças não entendem! Pode começar por lhe agradecer o facto de lhe estar a mostrar que a vida não é para ser levada tão a sério, que precisa de tirar um tempo para si. E depois cumpra! Só quando você começar a expressar a sua preguiça é que o seu filho estará livre para ser ele próprio, sem uma projecção sua.

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NB – andei algum tempo a pensar em voltar a estudar (no sentido de ensino convencional, porque nunca parei de estudar). Achei que deveria fazer um curso de psicologia, assim estaria melhor preparado para o trabalho que faço. Mas depois de ver os currículos de várias faculdades fiquei apático em relação a estes cursos. Não vi uma única cadeira que me suscitasse interesse! Agora compreendo porque a maioria dos psicólogos são pessoas complicadas! (e sim, mostram-me o complicado em mim). Os cursos de psicologia que vi são todos intelectualizados, tudo na cabeça! E nós agimos a partir do coração, dos sentimentos, e nunca da intelectualização dos mesmos! Por isso ouvimos as pessoas dizer “não sei onde tinha a cabeça quando disse/fiz isso!” Claro que não sabia onde tinha a cabeça: o coração fala mais alto!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Uma boa maneira de educar os filhos

Pedi ao meu querido amigo Gonçalo autorização para publicar esta história, uma vez que ilustra bem o poder da educação emocional nos relacionamentos familiares.

O Gonçalo e a Ana têm dois filhos, de 3 e 6 anos.

Estes dois amigos participaram no seminário do Processo da Sombra duas vezes. Neste processo permitiram-se crescer e evoluir, e educar os seus filhos seguindo uma vertente verdadeiramente espiritual.

Muito resumidamente o que sucedeu em casa deste meu amigo foi o seguinte:

O Gonçalo preparou um sumo e disse ao filho mais velho que era para partilhar com o irmão mais novo. Todavia a criança, expressando o seu lado egoísta, bebeu todo o sumo.

O Gonçalo poderia ter optado pela via mais fácil, que era apontar o dedo e acusar o filho de egoísta, mau, feio... etc. Isto ocuparia o meu querido amigo durante alguns segundos apenas. E deixaria marcas no filho para o resto da vida (ninguém que ser egoísta, mau ou feio). Em vez disso, o Gonçalo sentou-se ao lado do filho e fez-lhe ver que o que ele tinha feito era um acto de egoísmo. E não havia nada de errado com o egoísmo em determinadas situações (e explicou essas situações), mas naquele caso não era apropriado. Não precisou de dizer ao filho que tinha sido mau, ou feio. O menino compreendeu perfeitamente a importância de partilhar e, por iniciativa própria, pediu desculpa ao irmão.

Por outro lado, o meu querido amigo só se apercebeu do milagre que tinha ocorrido depois de tudo ter acontecido. Ou seja, não premeditou a conversa com o filho. E isto é o que acontece quando abraçamos a nossa sombra.

Eu acho bastante divertido ouvir as pessoas ditas “espirituais” que afirmam que somos todos um, e que o universo está em nós, e que o universo é holográfico (o todo está contido em tudo), etc. Mas depois esforçam-se que nem loucos para afirmar a sua separação! Porque estas pessoas não são más, nem egoístas, nem invejosas, nem ciumentas, nem avarentas, nem rancorosas! Nada, isso são os outros! Sou só eu a ver a contradição?

Isto mostra muito bem o nível de ignorância em que se estão a envolver e o quanto estão embrulhados nos seus enormes egos.

Passo a explicar-me. Este universo, pelo menos este, é feito de opostos. O dia perderia o significado sem a noite, o quente sem o frio, o alto sem o baixo. Só através dos opostos é que podemos discernir a realidade.

O mesmo sucede com as nossas emoções, hábitos e comportamentos. Um não pode existir sem o outro. A pessoa generosa também é egoísta (mas não vê o seu egoísmo, porque decidiu chamar-lhe outra coisa). Temos medo de assumir os nossos aspectos negativos porque alguém nos informou que esses aspectos são mal vistos pela sociedade, seremos abandonados, maus, etc. E isto pura e simplesmente não é verdade.

Se nós somos Um, então o que eu vejo nos outros está já em mim! Eu tenho apenas duas opções: ou expresso o aspecto ‘negativo’ de uma forma saudável, ou terei que o projectar e deixar que alguém me mostre esse aspecto por mim rejeitado. Mas isto não é um processo fácil. Não é porque nos ensinaram que certos comportamentos humanos são maus. E são-no! Quando não permitimos que estes se expressem de uma maneira saudável!

Basta olhar para um recém-nascido! Em questão de minutos ele expressa raiva, amor, alegria, tristeza... Tudo em dois ou três minutos!

Deixo-lhe um exemplo do que é expressar um comportamento de uma maneira saudável. (E aviso já que deve sentir-se livre para tecer os seus juízos de valor e moralismos – eu também o faria!) Ainda ontem fui para a praia. Uma praia fantástica onde é raro haver pessoas. Gosto de estar nu na natureza, de sentir na totalidade a presença da natureza em mim, e foi isso que fiz. Entretanto, o Rui chamou-me a atenção para alguém que se aproximava (eu estava a meditar, no meio de dunas, só seria visto por outros se alguém se afastasse bastante da praia). Eu simplesmente ignorei, o facto de poder ser visto não me afectou minimamente. O Rui, por outro lado, começou a tecer juízos de valor sobre o exibicionismo (acusava-me delicadamente de o ser).

Primeira questão: o que vês de mau num exibicionista? (são pessoas que se ‘mostram’ sem pudor a um público incauto). É óbvio que havia um exibicionista na sombra do Rui que ele não permitia expressar. Ao não permitirmos que um aspecto de nós, que consideramos mau, seja expresso, ele irá manifestar-se de maneiras pouco saudáveis! Perguntei ao Rui como é que ele podia expressar o seu “exibicionista” de uma maneira saudável, e o que estaria disponível para ele se se permitisse expressá-lo?... Depois de algumas tentativas (ok, e com a minha ajuda), descobriu que se fosse exibicionista na escola poderia ajudar muitos mais colegas, poderia brilhar mais e, assim, mostrar aos colegas que não só é ok brilhar como é importante para que outros possam fazer o mesmo. E aqui temos uma expressão saudável do exibicionismo!

Nós nascemos completos. Generosos e egoístas, alegres e tristes, estúpidos e inteligentes. Temos todos os aspectos da humanidade em nós. Mas depois ensinam-nos que alguns desses aspectos são maus. DEVERIAM ENSINAR-NOS ANTES A EXPRESSAR ESSES ASPECTOS DE UMA MANEIRA SAUDÁVEL! Mas ninguém sabe fazer isso, e é complicado, e perdemos muito tempo a explicar ás crianças...

Fiquei deslumbrado quando o Deepak Chopra afirmou num seminário que duas das suas características mais importantes são a inveja e a estupidez! A inveja, pelo facto de os irmãos serem reconhecidos pelo seu profissionalismo, e a estupidez de não saber como lançar-se na vida. E expressa estes dois aspectos de uma maneira incrivelmente saudável: a inveja foi o trampolim que o levou a estudar mais e a querer saber mais, a aprofundar os seus conhecimentos e a escrever sobre eles, partilhando a sua sabedoria com milhões de pessoas em todo o mundo! A estupidez levou-o a envolver-se com pessoas inteligentes que o ajudaram a construir o seu negócio de uma maneira que ele sozinho nunca teria conseguido!

Digam-me uma coisa: se o Dr. Deepak Chopra é capaz de afirmar publicamente que possui um lado invejoso e estúpido, porque será tão difícil para nós aceitarmos que possuímos aspectos na nossa sombra que preferíamos não existissem?...

E depois, estas pessoas altamente evoluídas e espirituais, esforçam-se loucamente por mudar! Mudar aquilo que não gostam nelas! E todos os dias dizem mantras belíssimos (que o são, sem dúvida), e vão a seminários para a limpeza de vidas passadas, e fazem regressões, e comunicam com os anjos, e limpam a aura... Tudo na vã esperança de mudar, de serem pessoas melhores, sem aspectos negativos! E esquecem-se da premissa inicial: nós somos tudo!

Este acto de querermos melhorar quem somos é idêntico ao do príncipe que, vivendo num castelo com mais de 200 assoalhadas, esquece-se disto e vive em dois alojamentos apenas. E passa uma vida a melhorar esses dois alojamentos, a reconstruir, a pintar em tons de rosa, a deitar abaixo uma parede e construir uma janela... Nunca usufruindo da totalidade do castelo!

Enquanto não abraçarmos a totalidade que somos nunca haverá paz. O inimigo a quem apontamos o dedo está dentro de nós. Ignorar aquilo de que não gostamos não solucionará nunca a nossa existência.

Conheço pessoas “evoluídas” que vivem num silêncio de desespero. Sorriem muito e fazem de conta que está tudo bem, que as suas vidas são perfeitas. E basta olhar com alguma atenção para ver que tudo não passa de uma máscara. Que por detrás da máscara há feridas emocionais profundas que tentam a todo o custo esconder delas mesmas.

E depois há pessoas verdadeiramente evoluídas. Que sabem que são tudo. E vivem felizes sabendo que são tudo. São poucas estas pessoas, mas existem.

Uma amiga minha, há alguns meses teve uma experiência maravilhosa com o seu aspecto “estúpido”: o filho chegou a casa, vindo da escola, e contou-lhe que outra criança lhe tinha chamado “estúpido”. Ela riu-se. Depois contou ao filho três situações em que ela tinha sido estúpida. Mais duas situações em que o pai tinha sido estúpido... Eventualmente a criança riu-se também e concluiu: “somos todos estúpidos, não é mamã?” – ao que ela respondeu “sim, somos todos estúpidos, mas também somos inteligentes!” E abraçou o filho. Curou uma ferida emocional ainda antes de esta criar raízes na criança!

É tão fácil descobrir o que está na nossa sombra. Primeiro veja quais as suas qualidades. Os opostos dessas qualidades encontram-se na sua sombra (e irão surgir na sua vida através do comportamento de terceiros). Por outro lado verifique quais os comportamentos humanos que “mexem” emocionalmente consigo. Também estão na sua sombra.

É fácil saber o que se encontra na sombra de alguém ouvindo essa pessoa a queixar-se. E se é o tipo de pessoa que já não se queixa de nada, dê o passo seguinte: descubra onde está em guerra consigo mesmo! Quais os aspectos de si dos quais tem vergonha? Aqueles aspectos que sente terror que outros descubram? Os aspectos que nega veementemente? Aquilo que sabe com toda a certeza que não é!

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Um exemplo do trabalho da sombra

Tenho uma amiga na Turquia com quem deveria começar agora a trabalhar num projecto internacional.

Todavia, há alguns meses esta minha amiga pregou-me uma série de partidas que me magoaram. Critiquei duramente a sua atitude e o seu carácter. Mas nunca lhe disse nada a ela! Foi a outros que me queixei!

Mas ela soube que tinha feito asneira porque deixou de comunicar. Até à semana passada. Enviou-me um email, como se nada tivesse acontecido, a perguntar-me como estavam as coisas do meu lado. Fiquei novamente magoado pela sua atitude!

O trabalho que tive que fazer:

Em primeiro lugar reconhecer que estava magoado devido à minha interpretação dos eventos. Era a minha interpretação dos eventos que me deixava a sentir o que sentia.

Depois escrevi os aspectos do carácter desta amiga que conseguia ver:

Gananciosa, invejosa, mentirosa, insegura, não honra a sua palavra, tem necessidade de brilhar, caprichosa, vontade de ajudar os outros, dedicada a partilhar os seus conhecimentos, esforça-se por dar o seu melhor, excelente profissional.

Para além disto, através de uma técnica simples de respiração, perguntei-me o que mais me afectava nela e a resposta foi um bem sonoro “Eu quero, posso, e mando!” – esta atitude magoa outros. Onde é que eu já vivi isto antes?... Quando era miúdo, a minha mãe era assim. Como é que eu interpretava esta atitude? Sentia-me magoado e abusado. E a pergunta de ouro: o que posso fazer para evitar estas situações? – falar a minha verdade!

A segunda parte deste exercício é ver de que forma aquilo que eu vejo nesta amiga é uma projecção minha! Consigo ver em mim situações em que já fiz e fui tudo aquilo que vejo nela. Com uma excepção: a atitude de “Eu quero, posso e mando!” – eu não sou assim! (pelo menos que tenha consciência). Aqui está o aspecto da sombra - aquele que rejeito e nego em mim!

Não precisei de mais que cinco minutos para ver situações em que mostrei precisamente essa atitude! Apesar de o ter feito pelos motivos errados.

Terceira parte. Se eu me permitisse abraçar este aspecto rejeitado de mim, e expressá-lo de uma maneira saudável, o que estaria disponível na minha vida?

E aqui é que doeu mesmo! Tantas situações do passado, principalmente com ex-funcionários, em que se eu tivesse expressado esta atitude me teriam evitado dissabores e dificuldades para eles!

Para completar este trabalho, para encerrar o evento, vou falar com as pessoas envolvidas (falar a minha verdade) e fazer-lhes saber qual a minha posição e o que podem esperar de mim.

A Pensão

Isto de ser humano é uma pensão.

Todas as manhãs chegam novos hóspedes.

Uma alegria, uma depressão, uma mesquinhez,

Uma percepção momentânea chega

Como um visitante inesperado.

Receba-os a todos e dê-lhes as boas-vindas!

Mesmo que sejam uma multidão de arrependimentos,

Que assolam violentamente a sua pensão

E levam todas as mobílias,

Ainda assim, trate cada hóspede com dignidade.

Ele pode estar a levar tudo o que há na pensão

Para que algo de delicioso entre!

O pensamento sombrio, a vergonha e a malícia

Dê-lhes as boas-vindas, rindo-se

E convide-os a entrar.

Sinta-se grato por quem quer que seja que apareça,

Porque cada um foi enviado

Como um guia do Além.

Jelaluddin Rumi

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Abraçar a Sombra com sucesso

Imagine que acorda um dia pela manhã e decide que quer escalar o Monte Everest. Vai à internet e compra um bilhete de avião para a Índia (passando por Londres, claro) e dois dias mais tarde está na Índia. Aí descobre que se enganou no país! Compra um bilhete para o Nepal e segue viagem. Quatro dias depois da decisão inicial eis que se encontra no topo da montanha mais alta do mundo!

Acredita mesmo que seria capaz desta proeza?... Claro que não! Levaria pelo menos uns dois ou três anos só a preparar-se! Só depois de muitas tentativas, escaladas a montanhas pequenas inicialmente, alguns entorses e queimaduras pelo frio, é que estaria preparado para o grande desafio.

Passa-se o mesmo em relação à nossa sombra. Se acreditar que o simples facto de tomar consciência de um aspecto negado é suficiente para o abraçar e integrar na totalidade que você é, está profundamente enganado. Na verdade estará a dar ainda mais poder à sombra. Irá sentir uma (falsa) segurança, sabendo que já abraçou o seu lado arrogante, raivoso, ressentido, mentiroso... Até ao dia que alguém lhe “prega” uma partida e a sua sombra vem cá para fora novamente!

Nós nunca seremos capazes de abraçar a nossa sombra através do intelecto. Apenas o nosso coração é capaz de o fazer.

Deixo-lhe abaixo algumas das condições que tem que observar se quiser abraçar os seus aspectos negados. Lembro-lhe que deverá fazê-lo com muito amor e carinho por você mesmo, sem se julgar nem criticar.

Primeiro: proteja-se da velocidade! Tem que respeitar um período de incubação antes de poder abraçar um aspecto negado. Quanto tempo precisa para integrar o seu impulso para fingir que está tudo bem, por exemplo? Lembre-se da metáfora inicial do Monte Everest!

Segundo: trabalhe no processo de integrar um aspecto da sombra durante algum tempo, em vez de o fazer de uma só vez. Há aspectos da sombra que resistem a sua integração consciente durante bastante tempo.

Terceiro: peça ajuda ao seu Eu Superior no processo de integração. É ele o responsável pela integração com sucesso.

Quarto: ao aplicar qualquer das muitas estratégias para a reintegração da sombra faça-o na presença de uma testemunha, que irá servir de guia. Esta pessoa deverá ser alguém em quem confia plenamente e que o irá apoiar nos momentos mais difíceis. Aproveito para dizer que se ainda não teve momentos verdadeiramente dolorosos, em que chorou de raiva, ou momentos de um vazio total, então ainda nem sequer pensou na viagem à Índia!

Para terminar: saiba que tudo o que observa no mundo exterior é um aspecto de si. Se alguém mostra raiva, ou rancor, ou vergonha, ou culpa ou má educação... Tudo aspectos seus que ainda não foram integrados. Nós só conseguimos experienciar no mundo exterior aquilo que possuímos no nosso mundo interior.

domingo, 23 de agosto de 2009

Introdução ao Curso de Educação Emocional

Cada um de nós nasce com um propósito divino e com um Dom que é único. Enquanto crescemos perdemos a visão que trouxemos connosco, esquecemos o nosso Dom e criamos, como um substituto muito pobre, a nossa história. Esta história, uma colecção de crenças que nos limitam, fabrica um Eu Falso e cria uma sombra que nos impede de conseguir sucesso nas áreas que nos são mais queridas. Quando conseguimos a coragem de olhar para as nossas histórias, principalmente as mais difíceis, e abraçamos tanto as perdas como os ganhos daí resultantes, podemos então começar a abrirmo-nos ao plano divino que sempre sonhámos para nós.

Neste curso, único não só pelo conteúdo e estrutura mas também porque lhe garanto que no final irá conseguir os seus objectivos, irá descobrir muitas coisas sobre si e a sua vida, como por exemplo:

- Como e porquê que a sua história é criada, como se transforma na sua identidade, e como evitar cair na armadilha de continuamente querer melhorar quem é, e solucionar os problemas que vai criando;

- Como descobrir as crenças de base da sua sombra, e como lidar com as vozes negativas incessantes que o mantêm preso em padrões auto-destrutivos e limitadores;

- Como eliminar qualquer resistência que sinta em relação a abraçar a totalidade que é, por forma a fazer as pazes com a sua sombra e, como resultado final, experienciar as muitas maneiras em que a sua sombra lhe é útil;

- Como perdoar-se a si e aos outros a partir do coração e resolver definitivamente qualquer situação do passado que tenha ficado incompleta, por forma a transformar a sua vida de uma maneira profunda e completa;

- Como se pode libertar do seu pensamento limitador auto-imposto e abrir-se ao seu Eu Divino;

- Como pode falar e viver a sua verdade e avançar na vida com facilidade e paz de espírito.

Este curso irá colocá-lo num caminho de luz e verdade que o fará avançar heroicamente no caminho do seu dom e propósito para esta vida. Irá acender a chama da curiosidade e do sentido de aventura à medida que vai explorando o território mais fascinante que alguma vez poderia descobrir: você!

Este curso é baseado nas obras de Jean Monbourquette, Robert Bly, Debbie Ford e Jeremiah Abrams. Antes de criar este curso passei pelo processo de curar as minhas próprias feridas emocionais, as histórias que me contava para justificar todas as ocorrências negativas da minha vida, e finalmente descobrir o meu dom. O processo não foi fácil. Na verdade houve alturas em que a vontade de desistir foi enorme.

Imagine que sofre uma fractura no fémur e quando se dirige ao hospital, o médico decide colocar um penso rápido e mandá-lo para casa. Irá passar toda a vida a mudar pensos rápidos, na vã esperança de curar a fractura. Eventualmente os músculos irão começar a entrar em putrefacção. A única cura possível para esta fractura é limpar toda sujidade, a parte putrefacta e suturar. E isto a sangue frio! Acha que vai doer? Claro que vai doer!

Imagine agora a sua vida. Nasceu completo, perfeito e com um dom único. Mas à medida que foi crescendo os adultos à sua volta ensinaram-no a não ser (Não sejas mau, não sejas feio, não mexas aí, não faças isso...). E assim perde a visão mais elevada que tinha para si. Esquece-se completamente do seu propósito e procura unicamente ser aceite e amado na sua “imperfeição”. Surgem as emoções tóxicas (vergonha, medo, culpa, mágoa, etc.). Agora, como adulto, irá passar uma vida a tentar sarar essas emoções. Abusando de si! Através de relacionamentos disfuncionais, abuso de substâncias, trabalho em excesso, dificuldades financeiras, isolamento, etc. Jamais curará as suas feridas emocionais enquanto não tiver a coragem de ir ao passado e curar cada episódio doloroso da sua história. A sangue frio!

O curso está estruturado em módulos distintos. Receberá em sua casa o dossier para a totalidade do curso (por e-mail). Irá ainda receber aulas à distância (por e-mail) e sessões por telefone. Haverá ainda uma componente prática e presencial bastante acentuada, através de workshops e seminários. Nestas aulas presenciais terá a oportunidade de crescer enquanto ser humano para além do que alguma vez julgou possível. Será confrontado com os seus medos, vergonhas, mágoas e desculpas, e irá ser capaz de fazer as pazes com cada um destes aspectos de si, por forma a abraçar a totalidade que é e viver o seu dom!

Para mais informações envie e-mail para: iriec.lda@gmail.com ou vá a: www.emidiocarvalho.com

Currículo

Primeira Parte:

- Dar início à viagem até ao Ser Completo que é;

- Revelar o que se esconde para além da sua história;

- Identificar os ingredientes da sua história;

- Explorar a sua história magnificente;

- Os benefícios aparentes de viver dentro da sua história;

- Avançar para além da culpa;

- Uma introdução ao Processo;

- O Processo de Integração.

Segunda Parte:

- Fazer as pazes consigo mesmo;

- Descobrir a sua especialidade única;

- Como viver fora da sua história;

- Os segredos que a Sombra pode partilhar consigo.

Terceira Parte:

- A chave para descobrir o seu Dom único;

- Ultrapassar o medo daquilo que os outros podem pensar;

- Exercícios para viver o seu Dom e partilhá-lo com o mundo.