sábado, 14 de maio de 2016

Mudanças

Eu quero mudanças na minha vida mas sem que perca a segurança e controlo sobre a vida que tenho agora.

A mente/ego é, por natureza, insatisfeita. Continuamente a comparar-se com outros, a decidir que precisa de mais, de algo diferente, de mudança.
Mas é esta mesma mente que depois tem medo da mudança, da sensação de impotência, de perder o controle. Ainda não descobriu que nunca teve qualquer controle sobre a vida.
A Vida é aquilo que está a acontecer agora. A mente abandona a Vida e viaja até ao passado ou futuro, procura motivos para depois decidir se quer estar feliz, triste, ansiosa, deprimida, eufórica. Mas, de qualquer forma, raramente a viver o presente.

É que no presente a mente sabe que ela mesma não é assim tão importante. Tudo flui sem qualquer esforço da sua parte.
Estar presente, ao contrário do que muitos pensam, não significa uma atitude passiva.

Mas se sossegar um pouco a mente começo a observar que a Vida sabe sempre o que é melhor para mim. As minhas mãos mexem-se, sem que eu tenha decidido a maneira como se mexem. E uma vozinha diz “Vai buscar uma água das pedras”. Não vejo porque não. Levanto-me e vou à cozinha. Observo deliciado enquanto os braços, as mãos, os dedos, dançam à volta da garrafa de água, do copo. A vida é isto: uma dança. Eu sou o dançado. Completamente vulnerável, impotente e imperturbável nesta irresponsabilidade aparente. Delicioso.

Outra vez a vozinha. Desta vez diz “o que a querida Natália questionava é válido e é capaz de haver muitas pessoas na mesma situação. Escreve sobre isso.” Não vejo porque não. Sento-me à frente do computador e os dedos sabem o que fazer. Limito-me a observar como eles carregam num botão e magicamente o computador começa a funcionar. Depois vão até ao rato e pressionam num botãozinho. Abre-se um programa de edição de texto. Olho para o ecrã, mas por pouco tempo. Os dedos começam a escrever. Observo deliciado como os pensamentos fluem. Sei que são todos mentira. Mas como não provocam qualquer stress escolho acreditar neles.

Quando observo atentamente a Vida a fluir nunca fico desapontado com nada nem ninguém. Aprendo a ouvir os outros. Se alguém estiver a chorar posso perguntar se posso ser de ajuda. E se a pessoa disser “desaparece da minha vista!” eu obedeço, afasto-me. Não há nada pior para uma pessoa a viver num inferno do que ter alguém à sua frente a impor amor e harmonia. É uma violação da mente. Não o faço.
A mente ainda não observou que a mudança é a única garantia na vida. Tudo muda continuamente. Numa dança deliciosamente coreografada.

A mente começa a abrir as portas do seu inferno quando acredita que tudo o que acontece é pessoal, é a si que acontece. Observa a diferença entre estas duas afirmações: “O meu amigo não me ouve” e “O meu amigo não ouve”. Na primeira a mente cria a necessidade de julgar, criticar e defender-se. Na segunda situação a mente observa, em paz. Começa a ver a vida nesta perspectiva. Ninguém te faz nada para te magoar intencionalmente. Apenas a mente acredita nesta mentira. E quer ter razão, sempre! Cada pessoa na tua vida faz o que faz porque é o que faz. E a mente decide que o que é feito está certo ou errado. Um inferno.

Uma familiar minha diz muitas mentiras. Continuamente. Nunca me engana. Quando quero ouvir uma mentira telefono-lhe. Nunca me deixou ficar mal. O problema, para outros familiares meus, é que querem que ela não minta. Ou seja, querem que ela seja uma pessoa que ela não é. Ela é a pessoa que mente. É bom saber isto. Não há guerra nem necessidade de justificações. Quero ouvir uma mentira e sei a quem posso ir para a ouvir. E posso escolher não ir ter com esta pessoa quando não quero ouvir mentiras. A minha experiência é que as pessoas são sempre honestas. Nunca me desapontam.

Quando quero ter a experiência de esperar por alguém marco um encontro com o amigo que chega sempre atrasado. Nunca me desaponta. Quando quero um trabalho mal feito, também sei a quem recorrer. E quando quero um trabalho bem feito também sei a quem ir. Poderia a vida ser mais amorosa?

Mas a mente quer mudança! Quer que os outros mudem, de preferência agora. E quer que a vida seja diferente daquilo que é, mas sem perder o controle. Um inferno. Se quero mudança só posso abrir os braços à vida. Confiar plenamente na Vida. Sei que me apoia continuamente.

Neste momento o pescoço apoia a cabeça. A cadeira apoia o corpo. O chão apoia a cadeira. O ar apoia o organismo. Apoio total, a cem por cento, da Vida. Delicioso. E para sofrer tenho que abandonar este lugar, que é o único real, e decidir que a minha mãe não me apoia, ou o governo não me apoia, ou o meu vizinho não me apoia. Outro inferno.

E se tens medo da mudança convido-te a um exercício para as próximas semanas. Aconselho-te mesmo a dedicar algum tempo a cada situação. Não queiras apressar-te. Vai com calma, pois é calma o que a mente procura.

É essencial começarmos a tornar-nos conscientes que Deus é amor incondicional (e este Deus é o Deus em que tu escolhes acreditar). E a pergunta para a mente, a pergunta para meditar durante alguns dias, é esta: se Deus é amor, de que maneira o que está a acontecer agora é uma prova desse amor?

De que maneira ter um cancro é uma prova do amor de Deus?
De que forma ter pouco dinheiro é uma prova do amor de Deus?
De que forma estar num processo de divórcio é uma prova do amor de Deus?
De que forma a morte da pessoa que mais amo é uma prova do amor de Deus?

Procura pelo menos três respostas verdadeiras, não caias na armadilha da mente de tentar convencer-te de algo em que não acreditas.

Posso deixar-te os meus exemplos.

Se eu tivesse um cancro, em fase terminal, seria um alivio! A grande maioria das pessoas não sabe quanto tempo tem nesta Terra. Eu saberia: pouco. E neste pouco tempo que me resta, oh meu Deus! Poderia amar as pessoas à minha volta. Poderia descobrir que não sou o meu corpo. Poderia ainda dar sem esperar de volta. Estaria disponível para experienciar conscientemente a decadência do corpo. Poderia ainda ensinar aqueles que amo que nunca morrerei, apenas o corpo físico morre. E há muitas mais bênçãos! Posso escolher vê-las, ou queixar-me. Ambas as situações são ok.

Se não tivesse dinheiro para a próxima refeição, seria um alivio. Não teria que pensar no que vou comer a seguir, porque não há nada. E poderia ainda experienciar a humildade pura de pedir ajuda. E ainda permitir que outros tenham a experiência de servir. E poderia criar uma nova e original maneira de ganhar dinheiro. E poderia saber com toda a certeza quem são os meus amigos (um amigo que me dissesse “não” continuaria a ser um amigo honesto. Seria o amigo que não ajuda. Da próxima vez saberia que esse não é o amigo a quem pedir ajuda).

E se estivesse a passar por uma separação, poderia a vida ser mais carinhosa? Poderia aprender a amar-me. Aprender a não depender dos outros para o meu bem-estar emocional. Poderia finalmente estar grato à vida pela presença da outra pessoa na minha vida. Poderia finalmente sair à noite com os amigos sem ter que me justificar! (ok, esta última não vale. Não saio à noite). E poderia ainda descobrir-me, observando de que maneira fui totalmente a favor da separação.

E se a pessoa que me é mais querida morresse iria ter a prova definitiva de que as pessoas não morrem, só os corpos. As pessoas, depois do corpo morrer, continuam vivas onde sempre estiveram: na mente e no coração. Por este motivo digo que não preciso que estejas vivo para te amar. Porque é no meu coração que tu vives.

Quando começares a observar que nada é assim tão importante, que o universo continuará a existir mesmo depois de morreres, que a tua passagem aqui é efémera, irás começar a saborear os primeiros sabores da vida de braços abertos.


Quando abraçares a morte, estarás livre para viver e de braços abertos para a mudança. Assim como assim, o pior que pode acontecer é morrer. E esta é a única certeza que tenho: o corpo físico morre. Eventualmente.

domingo, 8 de maio de 2016

Querer não é poder

Aprendemos muito cedo que há algo de errado connosco. Quando a criança tem um comportamento que não é aprovado pela família irá ter a experiência da vergonha ou culpa, a experiência de que há algo de intrinsecamente errado consigo. Isto acontece porque não sabemos distinguir a acção do sujeito. Julgamos a criança em vez do comportamento. A criança não é mal-educada quando faz birra, fazer birra é que pode afastar os outros.
Devido a este processo de domesticação aprendemos que há comportamentos e emoções que são maus. É mau estar triste, é mau chorar, é mau gritar, é mau ficar zangado. Aprendemos a importância de estar bem. Estar feliz. Dizer sim aos mais velhos. Obedecer mesmo que esta obediência signifique desobediência à nossa natureza.

Observem o carinho com que um adulto faz uma criança sentir-se mal por não sorrir ou não querer dar um beijo à tia ou não lhe apetecer comer a sopa toda. É o carinho que diz “se não fizeres como eu quero irei retirar o meu amor por ti”. E assim aprendemos a necessitar do amor dos outros para estar bem.
O preço desta aprendizagem é muito elevado. Iremos fazer coisas para agradar aos outros, iremos dizer sim quando queremos dizer não, iremos lutar contra a nossa própria natureza.
Para algumas crianças esta experiência inicial de negação da sua natureza é tão forte que decidem nunca crescer. Tornam-se adultos carentes. Em vez de serem adultos que aprovam e amam crianças, tornam-se adultos em busca da aprovação e amor dos outros.

Há uma forma de crescer, de amadurecer. Chama-se silêncio. Observar-me em silêncio. Neste silêncio poderei descobrir o quanto exijo dos outros e o quanto luto com tudo o que acontece se não for do meu agrado.

Aprendemos que para estar bem precisamos de ter coisas. Precisamos de um carro, de uma casa, de roupa da moda, do último modelo de telemóvel, de namorado/a, de filhos (de preferência bem educados e saudáveis – ninguém quer um filho mal-educado ou doente), precisamos de dias de sol, de férias no verão, de amigos que nos compreendam. Um constante “eu, eu, eu, eu”. Um inferno.
E como não é possível ter tudo o que queremos, amuamos. Ficamos tristes e fechamo-nos porque a vida, ou a esposa, ou os pais, não nos dá aquilo que queremos e acreditamos precisar.

Surgem as depressões (não gosto da vida como está a acontecer) e as ansiedades (não irei gostar da vida que acredito irá acontecer). Se apenas soubéssemos que a tristeza é um sentimento nobre, que nos convida a olhar para dentro. Mas como fomos ensinados que estar triste é mau, sempre que este sentimento visita tentamos eliminá-lo. Vamos às compras, visitamos um amigo, vemos televisão. Ou ficamos na cama a pensar em tudo o que está errado nas nossas vidas.

É bom ter planos, é bom desejar algo. Mas sem o apego a que a vida aconteça de acordo com os nossos planos.

Aprender a querer aquilo que está a acontecer é a chave para estar bem. E isto não significa uma atitude passiva de forçar-me a acreditar que está tudo bem. Se alguém grita e vomita insultos, é isso que eu quero (porque é o que está a acontecer) e observo como este corpo se movimenta na direcção oposta desta pessoa. Se uma mágoa surge, é esta a emoção a que eu dou as boas-vindas. Recolho-me em mim. Dou-me atenção a mim. Sei que as pessoas não têm o poder de me magoar, apenas aquilo que eu penso acerca das pessoas pode magoar-me.

Querer o amor de outro é uma forma requintada de sofrer quando este amor não é correspondido. Se amo outro posso ficar bem na presença dos sentimentos que esse amor desperta. Mas se acreditar que preciso que este amor seja correspondido irei perder esta experiência de amor que nasce em mim e passarei a sofrer porque o amor que sinto não é retribuído. Se para me sentir bem a amar outro ser humano precisar que esse outro me ame de volta, isso não é amor: é carência afectiva.
Sabe bem amar outros sem necessitar de ser amado de volta. É a liberdade total.

Quando nada quero, tenho tudo.