sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A pandemia da alegria - e o ódio que esconde na sombra

Vivemos uma época onde o crescimento espiritual é cada vez mais acessível a um maior grupo de pessoas. Todavia a maioria das pessoas está a involuir em vez de crescer.

Vamos por partes. O ser humano quando nasce é completo. Possui todos os atributos da humanidade. Se repararmos numa criança recém-nascida iremos ver uma alegria exuberante, mas também uma tristeza profunda. Um sorriso gigantesco pode anteceder um ataque de fúria. Uma criança é egoísta porque é esse egoísmo que permite comunicar à mãe que tem fome ou que quer um carinho. É um egoísmo que diz “Eu sou importante”. A raiva, comunicada através de um choro estridente, comunica mal-estar.

Todas as emoções humanas existem em nós e permitem-nos conhecermo-nos e aprender a comunicar. O problema real surge quando os adultos, quando temos 2 ou 3 anos de idade, começam a “ensinar” que certas emoções e atitudes são “más”. E porque nos dizem que são más, e retiram o seu amor se as manifestarmos, implícita ou explicitamente, nós decidimos esconder essas emoções. Rejeitamo-las, deserdamo-las e fingimos que não existem.

Mas essas emoções existem. Mesmo se escondidas num recanto do nosso subconsciente. Muitas pessoas têm dificuldade com a “sombra” porque afirmam a pés juntos que NÃO SÃO isso (“isso” sendo qualquer comportamento que observam noutros). A nossa sombra é precisamente TUDO AQUILO QUE NÃO SOMOS! E aquilo que não somos não nos deixará ser.
Quanto mais afirmamos que só somos isto ou aquilo mais energia damos ao aspecto oposto, que se esconde no nosso subconsciente e ganha poder. Eventualmente esse aspecto irá possuir-nos (literalmente). É por isso que vemos notícias do bom pai de família que afinal tinha uma amante. Ou da boa mãe que espanca um filho. Não eram eles, era a sua sombra que os possuí na totalidade. Os crimes mais hediondos são perpetrados pela sombra que foi rejeitada, deserdada e punida anos a fio.

Depois, acho piada aos “novos espirituais” que cedem um pouco e dizem que “um pouco de egoísmo é saudável”. Isto é o mesmo que afirmar que uma pequena desonestidade ou uma pequena traição é saudável! Quando alguém diz que “um pouco de egoísmo é saudável” o que está a afirmar é precisamente que o egoísmo NÃO É uma atitude saudável! Estão a ser complacentes e hipócritas. Sei do que falo porque felizmente já fiz as pazes com estes dois aspectos de mim e sei quando me poderão ser úteis.

Mas eu só serei tão altruísta quanto for capaz de ser egoísta. Alguém classificaria o egoísmo de um recém-nascido, que grita por alimento, como uma atitude negativa? Claro que não! O egoísmo é uma emoção tão saudável como o altruísmo. A raiva é uma emoção tão saudável como a paz de espírito.

Mas quando reprimimos emoções perfeitamente saudáveis elas irão procurar maneira de se manifestar, de se expressar. A raiva que eu não me permito expressar virá a mim através do ódio de um colega ou de um acidente de viação, ou de uma ameaça à minha integridade física.
Depois há aquelas pessoas que por influência de filmes como “O Segredo” (que têm o seu mérito) decidem que irão apenas olhar para as coisas boas da vida e agarram-se com unhas e dentes à alegria. Isto é um comportamento patológico. E só irá trazer dissabores num futuro não muito distante.

Mas eu posso permitir-me expressar todos os aspectos de mim de uma maneira saudável. A tristeza é extremamente saudável quando perdemos alguém que nos é querido. Mas se não nos permitimos expressar a tristeza no dia-a-dia, quando ela bater à porta será devastadora. Se eu não me permito expressar o falhado que há em mim, este será avassalador quando por fim conseguir ver a luz do dia.

Há ainda a questão do perdão, tão apregoado pelos “novos espirituais”. Este perdão é tão ridículo que sinto apenas compaixão por estas pessoas. É um perdão fabricado na cabeça, intelectualizado. Se observarmos a vida destas pessoas descobrimos tão rapidamente onde ainda guardam rancor e ressentimento, onde ainda não se perdoaram. Nas amizades, nos jogos de computador, no álcool, na bisbilhotice, nos ataques de que são vítimas, nos acidentes, nas discussões, nas amizades que se perdem, nas relações fingidas, na necessidade de olhar com complacência para o mal alheio. Tudo sintomas de incapacidade de perdoar a partir do coração.

É fácil amar a pessoa que “é bem comportada”. E amar a pessoa que atravessa a sua noite escura da alma? Como amar o marido, ou a esposa, depois de descobrir que fez um desfalque na empresa? Como amar a amiga que descobrimos que fala mal de nós? Como amar o homem que está numa cadeia porque matou os filhos e a esposa? – Não quero dizer que estes comportamentos não devem ser punidos! Mas se compreendermos a sombra saberemos que quem comete estes actos é o aspecto reprimido, indesejado e amordaçado da pessoa.

Você, por exemplo, pode tornar-se meu amigo. E acredita que o Emídio é uma pessoa boa e generosa que gosta de partilhar os seus conhecimentos. E vê-me assim durante anos. E de repente descobre que o Emídio é egoísta! E que o Emídio é avarento! E que o Emídio mente! E que o Emídio é desonesto!

E vai dizer que afinal não me conhecia de verdade! Mas a realidade é muito mais profunda. Em cada um de nós há complexos, subpersonalidades, que exigem ser experienciadas. Há o Emídio santo e o Emídio pecador. O que fala a verdade e o que mente. Na verdade não são o Emídio, são o Manuel Mentiroso, o Ricardo Raivoso, o Ivan Invejoso, O Fernando Fala-Barato.... Todos nós temos dentro de nós muitas subpersonalidades, as quais existem precisamente porque deserdamos aspectos de nós.

Eu sinto compaixão pelas pessoas “boas” porque, mais cedo ou mais tarde, irão tornar-se no preciso oposto daquilo que se esforçaram anos por ser.

O papel dos pais é ensinar aos filhos quando é saudável, apropriado, expressar uma emoção ou um comportamento rotulado pelo mundo como “mau”. Quando o filho chega a casa com um desejo de matar o professor porque fez pouco dele (estou a falar de exemplos, espero que os professores não levem a peito – nutro uma grande estima por eles e as pessoas da minha infância que melhores memórias me proporcionam foram os meus professores). O que um pai pode fazer para ajudar o filho a expressar a raiva, a fúria, pelo professor? Regra geral o progenitor ensina o filho a reprimir esse sentimento. Mas se o sentimento surgiu é porque é válido! É esse sentimento que pode salvar a vida de um ser humano se for atacado! É esse o sentimento que pode resolver uma situação de injustiça extrema! Mas o pai pode ensinar ao filho que é ok ele sentir o que sente pelo professor. Pode dar-lhe uma almofada e dizer-lhe que dê uns valentes murros e gritos, imaginando que é o professor que causou o dano. Assim a emoção é expressa e não vai criar resíduos tóxicos no corpo. Depois disto o pai deve explicar ao filho que todos fazemos o que o professor lhe fez, incluindo a própria criança. Com exemplos específicos.

As crianças aprendem facilmente através de exemplos. Diga-lhe quando foi a última vez que fez troça de alguém, mesmo que tivesse sido apenas mentalmente. Mostre-lhe que todos o fazemos.
Agora que ninguém está a vê-lo, responda a estas perguntas com um “sim” ou “não”:
- Alguma vez mentiu?
- Alguma vez traiu outra pessoa ou a si mesmo?
- Alguma vez gozou outra pessoa ou a si mesmo?
- Alguma vez se odiou ou odiou outro?
- Alguma vez se sentiu mesquinho?
- Alguma vez tomou consciência de ter errado?
- Alguma vez lhe apeteceu bater noutra pessoa ou em si mesmo?
- Alguma vez desejou a sua morte ou a morte de outro?
- Alguma vez praguejou?

A verdade última é que eu sou tudo o que vejo nos outros. Sou a verdade e a mentira. A bondade e a maldade. O egoísmo e o altruísmo. A alegria e a tristeza. Negar a existência de qualquer um destes aspectos apenas servirá para me magoar mais cedo ou mais tarde.

Nós podemos intelectualizar a nossa forma de estar no mundo. Podemos fingir que somos apenas alegria e bondade. Quanto mais rejeitarmos um aspecto de nós, mais esse aspecto ganhará poder sobre nós. Até um dia... Regra geral a nossa sombra ganha poder até por volta dos quarenta anos. Daí que para as pessoas com menos de quarenta seja muito difícil aceitar o que digo. A partir dos quarenta a nossa sombra tem poder suficiente para começar a manifestar-se. E fá-lo de maneira intransigente. Através de um divórcio, de um desemprego, de uma doença súbita, de um acidente, de um conflito irreparável.
Mas podemos continuar a fingir que somos “apenas” pessoas boas. A pergunta que tenho que me colocar é simples: prefiro ser uma pessoa boa ou uma pessoa completa?

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Uma história para crianças (e adultos também!)

Acredito que todas as pessoas são boas. Todas possuem um coração nobre. Uma muito, muito, pequena minoria nasce sem consciência, mas é a excepção quase insignificante. Porque acredito nisto, hoje escolhi uma história que a Debbie Ford conta no seu livro “Quando as pessoas boas fazem coisas más” (Editora Estrela Polar).

Há uma história antiga dos índios Cherokee sobre o chefe de uma grande aldeia. Um dia o chefe decide que chegou a altura de ensinar ao seu neto favorito os factos da vida. Leva-o para a floresta, fá-lo sentar sob uma velha árvore e explica: “Filho, há uma luta em curso dentro da mente e do coração de todo o ser humano que hoje está vivo. Apesar de eu ser um velho chefe sábio, o líder do nosso povo, essa mesma luta acontece dentro de mim. Se não souberes que a batalha está em curso, ela enlouquecer-te-á. Nunca saberás em que direcção ir. Na vida, umas vezes ganharás e depois, sem perceberes porquê, de repente sentir-te-ás perdido, confuso e receoso e podes perder tudo o que tanto te esforçaste por adquirir. Pensarás muitas vezes que estás a fazer o que está certo para depois descobrires que estavas a fazer as escolhas erradas. Se não compreenderes as forças do bem e do mal, a vida individual e a vida colectiva, o Verdadeiro Eu e o Falso Eu, viverás sempre uma vida de grande agitação.”

“É como se houvesse dois grandes lobos dentro de mim: um é branco e outro é negro. O branco é bom, generoso e não faz mal. Vive em harmonia com tudo o que o rodeia e não se ofende quando não há intenção de ofender. O lobo bom, estabilizado e forte na compreensão de quem é e do que é capaz, só luta quando é acertado fazê-lo e quando tem de o fazer para se proteger a si ou à sua família e, mesmo assim, fá-lo da maneira correcta. Cuida de todos os outros lobos da sua alcateia e nunca se desvia da sua natureza.”

“Mas também há um lobo negro que vive dentro de mim, e este lobo é muito diferente. É ruidoso, colérico, descontente, invejoso e tem medo. A mínima coisa provoca-lhe um acesso de raiva. Luta com toda a gente, o tempo todo, por razão nenhuma. Não consegue pensar claramente porque a sua ganância por mais e a sua raiva e ódio são imensos. Mas é uma raiva impotente, filho, pois a sua raiva não muda nada. Arranja sarilhos onde quer que vá, por isso encontra-os facilmente. Não confia em ninguém, portanto, não tem amigos verdadeiros.”

O velho chefe senta-se em silêncio durante alguns minutos, deixando a história dos dois lobos penetrar na mente do seu jovem neto. Depois, inclina-se lentamente, olha o neto nos olhos e confessa: “Por vezes, é difícil viver com estes dois lobos dentro de mim, pois ambos lutam arduamente por dominar o meu espírito.”

Atraído pelo relato daquela grande batalha interior do seu antepassado, o rapaz puxa pela tanga do avô e pergunta ansiosamente: “Qual dos lobos ganha, avô?” E com um sorriso conhecedor e uma voz forte e firme, o chefe diz: “Ganham ambos, filho. Se eu optar por alimentar apenas o lobo branco, o lobo negro estará em todas as esquinas à espera de ver se estou em desequilíbrio ou demasiado ocupado para prestar atenção a uma das minhas responsabilidades e atacará o lobo branco, causando muitos problemas a mim e à nossa tribo. Estará sempre zangado e a lutar por obter a atenção porque anseia. Mas, se eu der alguma atenção ao lobo negro porque compreendo a sua natureza, se o reconhecer como força poderosa que é e lhe fizer sentir que o respeito pela sua personalidade e o utilizar para me ajudar, se nós, enquanto tribo, alguma vez nos encontrarmos numa situação difícil, ele ficará feliz, o lobo branco ficará feliz e ganham ambos. Todos nós ganhamos.”

Confuso, o rapaz pergunta: “Não percebo, avô. Como podem ganhar ambos os lobos?” O chefe prossegue: “Sabes, filho, o lobo negro tem muitas qualidades importantes de que posso precisar, dependendo do que nos surge no caminho. É feroz, determinado e não cede em nenhum momento. É inteligente, esperto e capaz dos pensamentos e estratégias mais tortuosos, que são importantes em tempo de guerra. Tem muitos sentidos apurados e intensificados que só alguém que veja através dos olhos das trevas consegue apreciar. No meio de um ataque, pode ser o nosso maior aliado.” O chefe tira então uns bifes frios da sua bolsa e coloca-os no chão, um à sua esquerda e outro à sua direita. Aponta para os bifes e diz: “Aqui à minha esquerda está a comida para o lobo branco e à direita a comida para o lobo negro. Se decidir alimentar ambos, deixarão de lutar pela minha atenção e posso utilizar cada um deles conforme necessário. E, não havendo guerra entre eles, consigo ouvir a voz do meu conhecimento mais profundo e escolher qual deles me pode ajudar melhor em cada situação. Se a tua avó quiser comida para fazer uma refeição especial e eu não tiver cuidado disso como devia, posso pedir ao lobo branco que me empreste o seu encanto para consolar o lobo negro dela, que está com fome e zangado. O lobo branco sabe sempre o que dizer e vai ajudar-me a ser mais sensível às necessidades dela. Sabes, filho, se compreenderes que há duas forças principais que existem dentro de ti e lhes manifestares o mesmo respeito, ambas ganharão e haverá paz. A Paz, meu filho, é a missão do Cherokee – o propósito fundamental da vida. Um homem que tem paz no seu íntimo tem tudo. Um homem despedaçado pela guerra no seu íntimo não tem nada. Tu és um jovem que tem que escolher como vais interagir com as forças antagónicas que vivem dentro de ti. O que decidires determinará a qualidade do resto da tua vida. E, quando um dos lobos precisa de atenção especial, o que acontecerá por vezes, não tens de ter vergonha: basta admiti-lo perante os mais velhos e obteres a ajuda de que necessitas. Depois de divulgado, outros que travaram a mesma batalha podem oferecer-te a sua sabedoria.”

Esta história simples e pungente explica a difícil situação da experiência humana. Cada um de nós está empenhado numa luta contínua em que as forças da luz e da sombra se digladiam pela nossa atenção e obediência. Tanto a luz como a sombra residem dentro de nós ao mesmo tempo. A verdade seja dita, há uma alcateia inteira à solta dentro de nós – o lobo carinhos, o lobo de bom coração, o lobo inteligente, o lobo sensível, o lobo forte, o lobo altruísta, o lobo sincero e o lobo criativo. Juntamente com estes aspectos positivos existe o lobo insatisfeito, o lobo ingrato, o lobo com direitos, o lobo maldoso, o lobo egoísta, o lobo vergonhoso, o lobo mentiroso e o lobo destrutivo. Todos os dias temos oportunidade de reconhecer todos estes lobos, todas estas partes de nós, e podemos escolher como nos relacionamos com cada uma delas. Faremos o nosso juízo e fingiremos que algumas não existem, ou assumiremos a propriedade da alcateia toda?

Por que será que sentimos a necessidade de negar a alcateia que vive dentro de nós? A resposta é fácil. Ou pensamos que eles não existem ou que não deviam existir. Tememos que, se admitirmos todos os nossos “eus” diferentes que ocupam o espaço da nossa psique, sejamos rotulados como esquisitos, diferentes, defeituosos ou psicologicamente fragmentados. Pensamos que devíamos ser boas pessoas “normais” que são habitadas por uma só pessoa. Mas há muitos “eus” e a recusa de os aceitarmos é um erro muito grave – que nos levará a cometer actos estúpidos e imprudentes de auto-sabotagem.

Eis o grande segredo: o nosso “Eu” contém muitos “eus”, porque dentro de cada um de nós existem todas as qualidades possíveis. Não há nada que possamos ver, nem nada que possamos julgar, que não sejamos. Somos todos a luz e a sombra, o santo e o pecador, o atraente e o desagradável. Somos todos bondosos e calorosos bem como frios e mesquinhos. Dentro de si e dentro de mim residem todas as qualidades conhecidas da humanidade. Embora possamos não ter consciência de todas as qualidades que possuímos, estão dormentes dentro de nós e podem revelar-se a qualquer momento, em qualquer lugar. Compreendê-lo permite-nos perceber a razão pela qual todos nós, “pessoas boas”, somos capazes de fazer coisas tão más e, mais importante, a razão por que por vezes somos os nossos piores inimigos.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

A Infidelidade

Este é um tema bastante difícil para todos os que desejam abraçar os seus aspectos deserdados. Se está numa relação em que o seu companheiro/a lhe é infiel, de que maneira pode ser uma projecção sua?... Porque é mesmo. Sempre. Mas não é fácil descobrir este aspecto na nossa sombra.

Em primeiro lugar é importante que compreenda o significado da palavra. Só assim conseguirá resgatar este aspecto. Volto a afirmar, este trabalho é útil apenas ás pessoas que têm uma reacção inapropriada ao tema ou que estão a passar neste momento por esta situação no seu relacionamento.

Há muitas maneiras de ser infiel. Um candidato a ministro que promete algo e não cumpre é tão infiel como a mulher que tem um amante. Infidelidade é isso mesmo: não cumprir! É também atraiçoar.

Para que comece a ter uma ideia de como pode abraçar este aspecto deixo-lhe o exemplo de um querido amigo. Como esta é uma situação que envolve uma componente legal tomei a liberdade de alterar todos os nomes.

O meu amigo Paulo tem um problema com o seu cunhado, João! Mas é um problema mesmo dos pesados. O Paulo fica alterado, odeia na verdade, o que o cunhado faz à esposa! Fica revoltado! Porque o João é infiel à sua esposa.

Esta reacção é uma clara demonstração da sombra do Paulo. A atitude apropriada seria encarar a situação, falar com o cunhado e a esposa dele e a partir daí, o Paulo não tem que se envolver no que quer que seja da relação do cunhado e da esposa! Mas não! O Paulo tem sempre a mesma reacção!

Quando a nossa reacção é muito forte isto é uma indicação da nossa sombra a lutar para vir cá para fora. E se não a deixarmos vir, se a reprimirmos, ela irá causar-nos danos.

Estava ontem a falar com a esposa do meu amigo Paulo e ela contava-me precisamente esta situação da reacção do marido ás infidelidades do cunhado. Entretanto o Paulo chega a casa e a esposa passa-lhe o telefone para ele me cumprimentar. Nesta altura estava eu a pensar: “de que maneira é que o Paulo é infiel?...” Porque se tem sempre esta reacção ele próprio também está a ser infiel, mas não consegue ver a sua própria infidelidade. Precisa de a projectar para assim conseguir ficar consciente.

A primeira coisa que o Paulo me diz ao telefone é: “Olá! Cá continuamos, ainda sem a escola...”

Ora bem, o Paulo sempre teve um sonho: ter uma escola muito especial! De cada vez que estou com ele falamos do assunto. Os olhos dele brilham! Fala com um entusiasmo e alegria arrebatadores! E foi aqui que eu descobri a sua projecção. Aviso-o que a forma como se consegue que a pessoa se torne consciente da sua sombra, dos seus aspectos deserdados, não só não é pacífica como é preciso ter plena consciência de todos os semblantes utilizados como máscara para encobrir a sombra. Digo isto para que não pense que o processo é simples e eficaz todas as vezes. Não é. Corre o risco de magoar a pessoa (e eu sou bom a magoar as pessoas quando se trata de desmascarar a sombra), e tem que saber como ajudar a pessoa a ultrapassar a sombra, a ver o ouro para além da escuridão.

Depois das primeiras palavras do meu amigo Paulo o que eu disse foi isto (em tons de acusação, como se estivesse a apontar o dedo publicamente para que todos pudessem ver e ouvir): “Paulo, tu és um grande traiçoeiro! E mais, não só és traidor como infiel! Infiel!” O Paulo começou a rir-se (sinal positivo de que a sombra está a vir até à consciência). “És o maior infiel que conheço pessoalmente! Meu Deus! Tu és mesmo infiel!”

E não precisei de continuar (o Paulo já fez o Processo da Sombra). A voz dele mudou de tom quando afirmou: “pois sou... há anos que ando a falar na escola e...”

Ao que respondi: “...E ainda não fizeste nada! Tu estás a ser infiel ao teu maior sonho! Estás a trair todo o teu potencial e provavelmente o teu propósito de vida!”

Espero apenas que este exemplo lhe seja útil. Se está a passar por uma situação de infidelidade na sua relação terá que se questionar de que forma é que a outra pessoa é uma projecção sua. De que maneira faz a mesma coisa, mas escolhe colocar um rótulo diferente.

Lembre-se que todas as suas experiências no mundo exterior, todas, só podem acontecer a partir daquilo que você possui no seu interior. O mundo exterior é sempre uma expressão do que está dentro de nós.

domingo, 30 de agosto de 2009

Um dos motivos porque a “Lei da Atracção” é incompleta

O filme “O Segredo” termina com a cena de uma jovem a escrever na areia da praia “Follow your bliss” (Siga a sua felicidade).

Esta afirmação é de Joseph Campbell e no filme aparece completamente descontextualizada. No filme somos conduzidos a acreditar que se nos mantivermos continuamente num estado de alegria e bom humor tudo virá a nós facilmente. Mas o que Campbell queria dizer era isto (palavras do autor, e traduzidas por mim): “nós temos que possuir a coragem de levar a bom porto a nossa missão nesta vida, ao lugar onde a felicidade nos aguarda. Seguir a nossa missão na vida exige um compromisso sério que não pode ser separado dos eventos a que chamamos ‘sacrifícios’. São os sacrifícios momentâneos, o deixar de desfrutar de um prazer momentâneo, que nos levarão ao prazer máximo: ser úteis aos outros e encontrar aí a nossa felicidade. E a isto chamo-lhe ‘Seguir a sua Felicidade!”

Vamos por partes. Neste universo pelo menos, tudo existe como dualidade. Riqueza e pobreza são dois opostos de uma mesma situação: situação financeira. Alegria e tristeza são dois opostos de uma mesma situação: estado de ânimo. Tudo tem um oposto equivalente. Sem um o outro não tem existência. Com certeza já reparou que tem alturas que se sente bem e depois aparece alguém para “estragar” o seu dia, ou acontece-lhe qualquer coisa que lhe causa um desequilíbrio no seu estado de espírito. Há alturas que tem mais dinheiro (por exemplo, no início do mês) e alturas em que tem menos dinheiro. Se olhar para a sua vida com um olhar honesto irá encontrar sempre a presença de opostos.

Dia e noite, quente e frio, alto e baixo, macio e áspero. Sem contrastes, sem opostos, não seria possível experienciar a vida. Como poderia saber o que é a bondade sem a comparar com a maldade? E para as pessoas que estão tão embrenhadas num estado de negação que afirmam apenas serem pessoas boas, como sabem que são pessoas boas? Comparando-se com a maldade alheia! Caso contrário nem se pronunciavam sobre o assunto!

Uma coisa que ninguém pareceu prestar atenção durante o filme “O Segredo” é que todos os intervenientes tinham passado por situações de pobreza (o filme foca a atenção quase na totalidade para a questão financeira). Num universo de opostos é apenas natural que depois de uma situação de pobreza surja uma situação de riqueza. O oposto também é verdade.

Apenas a pessoa que experiencia uma depressão profunda e suicida será capaz de experienciar uma euforia excessiva. Poderíamos chamar a isto a “Lei do Ritmo”. Da mesma forma, a pessoa que experiencia uma pobreza abjecta tem o potencial para experienciar uma riqueza estonteante.

Na saúde acontece o mesmo. Já todas as pessoas ouviram, ou conheceram, alguém que parecia ter uma saúde excepcional apenas para morrer de uma doença súbita. Mais uma vez estamos perante os opostos.

Uma pessoa que experiencia algumas dificuldades económicas irá experienciar apenas algum desafogo financeiro. O pêndulo balança para os dois lados proporcionalmente.

Ainda a semana passada lia num jornal que os multimilionários do planeta começavam a perder dinheiro. Não me surpreendeu.

Pessoalmente já experimentei NLP, Psych-K, hipnose, EFT e muitas outras técnicas de alteração de padrões de comportamento. Todas resultam, pelo menos durante algum tempo.

Cada técnica que aprendia e aplicava parecia dar-me um empurrão em frente. Mas depois de algum tempo a minha vida parecia regressar aos mesmos velhos padrões. Pergunto-me quantas pessoas partilham desta minha experiência.

A Lei da Atracção irá funcionar, pelo menos durante algum tempo. Mas eventualmente a vida irá mostra-lhe o oposto. E este oposto pode ocorrer na sua própria vida ou como uma projecção, na vida de alguém que lhe é querido.

Já alguma vez notou que há pessoas que têm uma vida calma, pacífica, simples, sorridente. E as pessoas à volta delas são precisamente o oposto? As suas projecções. Ou seja, tudo aquilo que eu não sou irei projectar nos outros. Os opostos têm que se manifestar de alguma forma.

Se por acaso têm dois filhos repare também aqui nos opostos. O mais provável é que se tem um filho que é muito irrequieto irá ter o outro muito calmo. Se um gosta de estudar, o outro gosta é de se divertir. Se um fala muito, o outro está sempre calado. Na sua família irá ver o mesmo fenómeno. Tudo aquilo que não queremos ser, alguém vai ter que o ser por nós. Infelizmente, tudo aquilo que não queremos ser não nos deixará ser.

Claro que para tudo há uma solução. Se neste momento, por exemplo, está a passar por uma situação de sucesso pode ter a certeza que irá também ter o insucesso nessa área. A única forma de evitar isto é expressando o oposto de uma forma saudável. Se é um homem de sucesso, como expressar de uma maneira saudável o homem falhado?.. Garanto-lhe que não só pode como é bastante fácil. Se, por outro lado, se sente um falhado, tem que começar já a abraçar o homem de sucesso, o que também é fácil.

Mas enquanto não abraçar tudo aquilo que rejeita em si (e se neste momento quer mudar algum aspecto da sua vida, está a rejeitar esse mesmo aspecto presente) irá ter duas situações continuamente presentes: as pessoas à sua volta irão ser as projecções das partes de si que rejeita (e isto é pedir muito a quem quer que seja) e, por outro lado, mais cedo ou mais tarde, a projecção irá voltar a si, causando danos para além do que possa imaginar.

Há um teste simples para saber se de facto está a viver a sua verdade: sente-se em frente a uma parede, de olhos sempre abertos, durante quatro horas. Sem qualquer distracção! Se no final das quatro horas se sentir tão bem como no início, pode ter a certeza que está de bem com a vida. Este teste é feito por monges budistas na Tailândia, não é uma invenção minha!

Por outro lado, as únicas pessoas que não possuem sombra são aquelas que vivem na escuridão absoluta.

Se neste momento está a passar por uma situação financeira difícil estou seguro que das duas uma: ou conhece alguém sem dificuldades financeiras, ou está a criticar duramente alguém que não tem dificuldades financeiras. É a sua projecção, a parte de si que não está a expressar neste momento. O oposto também é verdade. Se neste momento vive desafogadamente estou seguro que ou conhece alguém que está com problemas financeiros ou critica alguém que está com problemas financeiros. Mais uma vez, uma projecção sua.

A arte de abraçar aquilo que não somos ou não queremos ser, a arte de abraçar a totalidade que somos e de sermos um ponto de mudança para outros, pode ser descoberta num seminário do Processo da Sombra.