sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A Minha Sombra – Fazer As Pazes Com O Sabotador

Lição 2 – fazer o inventário das grandes lições da sua vida

Para que possa avançar na sua vida e criar um futuro sem igual, é imperativo olhar para dentro, para quem é de verdade. Nós temos que estar desejosos de extrair o ouro escondido na escuridão, a sabedoria das nossas feridas emocionais, e as lições das nossas experiências, para que o futuro possua uma vibração nova e diferente, e um outro tipo de paixão e entusiasmo. Pergunto-lhe: para quê relembrar e reviver o passado, quando pode criar um futuro mil vezes melhor e mais delicioso? Para quê comer uma uva seca quando pode apanhar uma suculenta e deliciosa ainda no cacho?

Tenho-me feito a mim mesmo esta pergunta e, ao fazê-lo, tive a oportunidade de aprender com as lições mais duras da minha vida (e até talvez não tenham sido assim tão duras, mas na altura, para mim, foram-no sem dúvida). Só assim consigo ser completo com a minha vida até ao momento presente.

Abandonar o nosso estado de negação pode ser duro, mas reparo que o universo está continuamente num processo de ajudar-nos a crescer e a tornarmo-nos adultos magnificentes. Foi para isto que escolhemos vir a este planeta nesta altura. O universo apenas deseja que abracemos os presentes que escolhemos antes para nós.

Quais são as suas lições de vida até agora? Mais precisamente, que lições se tem negado a aprender, ou ás quais tem resistido ou se tem andado a esconder? E que possibilidades poderiam surgir se você decidisse abandonar o estado de negação e afirmasse a verdade nua e crua? A seguir mostro-lhe as minhas oito lições principais de amor. Aquele amor que dói quando o experienciamos mas a partir do qual podemos ter acesso ao nosso ouro interior. Enquanto faz a sua lista pessoal, pode pegar nas minhas lições (podem variar bastante de pessoa para pessoa) e utilizar aquelas com as quais se identifica.

Protege-te. Só porque quer o melhor para os outros isto não significa que os outros também queiram o melhor para si. Para que possa ser completamente responsável e carinhoso para consigo tem que se perguntar “O que tenho que fazer para me proteger nesta relação?... Emprego?... Situação?...” Qual a fronteira pessoal saudável que pode estabelecer para si ainda esta semana que tornaria o seu percurso um caminho ladeado de flores, em vez da correria por entre penhascos?

Ninguém virá para te salvar. Muitas vezes olhamos à nossa volta à procura de alguém que tome conta de todas as coisas que não gostamos na nossa vida. Alguém que possa gerir as nossas finanças, eliminar a dor física ou emocional, ou pôr um fim à nossa solidão. E depois sofremos as consequências de ter negado as nossas maiores capacidades. Se pensa que alguém o vai salvar, estará à procura de mais desilusões e desapontamentos. Poupe-se. Salve-se a si mesmo.

Quando te dizem quem são, ouve. Estará neste momento a viver em negação em relação a alguém na sua vida e à espera que esse alguém seja diferente de quem é, ou que mude? Nós recebemos informações sobre quem as pessoas são de tantas maneiras diferentes. Especialmente através das suas acções. Por isso mesmo, sintonize-se com a sua intuição, com os seus instintos e recuse-se a minimizar os seus sentimentos intuitivos.

Resgata a tua luz. Recorde-se que quando fica admirado pela grandeza, pelas qualidades e pelo brilho de alguém, está na verdade a ver-se a si mesmo. Identifique aquilo que mais admira, ou ama, nos outros e descubra como pode alimentar essas qualidades em si e manifestá-las na sua vida. Em vez de fixar a sua atenção no brilho dos outros, procure formas de manifestar o seu imenso brilho.

Sê o gestor da tua vida. Com certeza que já pôde observar que há pessoas que mentem, roubam, atraiçoam, manipulam e se aproveitam de um modo geral das fraquezas dos outros. Aceite uma responsabilidade radical: gerir as pessoas com quem lida, aquelas com quem tem negócios ou relacionamentos. Não no sentido de manipular os que o rodeiam mas apenas no sentido de escolher muito bem aqueles que quer que o rodeiem. Faça a sua própria pesquisa, faça perguntas directas e encontre a informação correcta que o levará a respostas que lhe dão poder.

Diz “não” quando queres dizer “não”. Lembre-se que não está a fazer favores a ninguém quando diz “sim” e fica depois carregado de ressentimento. Faça uso da sua voz verdadeira e cure-se da Síndroma do Agradar aos Outros.

Identifica os teus amigos verdadeiros e mantêm-nos por perto. Muitas vezes gastamos imensa energia a tentar criar amizades disfuncionais, quando no fundo sabemos que algumas pessoas nunca serão verdadeiros amigos. Conscientemente faça uma lista dos seus Amigos Verdadeiros e dê a sua atenção incondicional a esses – aqueles amigos que irão estar ao seu lado nos maus momentos (que todos iremos ter). E se não souber se determinada pessoa é digna de ser chamada de Amiga Verdadeira, é tão simples como perguntar directamente a essa pessoa.

Limpa o teu passado. O nosso mundo exterior é um reflexo do nosso mundo interior. Se o nosso mundo interior está repleto de rancor e ressentimento, assuntos que atentam contra a integridade e situações por finalizar, crenças limitadoras, fantasias e sonhos sem nexo, é praticamente impossível ao universo oferecer-lhe a abundância que o aguarda.

Ouça agora a Meditação Activa #2 (canto superior direito em formato mp3)

Entrar em Acção!

Faça uma lista de três assuntos ou situações que ainda não deu por terminados. Aqueles que se encontram incompletos e que sente que se arrastam (arrastando-o a si no processo). Tome a decisão de entrar em acção nos próximos oito dias que tenha por objectivo pôr fim a estes três assuntos ou situações. Pode ser tão simples como um telefonema, enviar um email, ou procurar informação na Web. O simples facto de escrever na sua agenda uma data fixa em que irá pôr um fim a uma destas três situações irá restabelecer e melhorar a sua integridade interior.

Dica de Apoio Emocional

Ao fazer um inventário dos padrões e lições mais difíceis da sua vida, é perfeitamente normal ter sentimentos de desalento, raiva, e até uma determinação aparentemente devastadora. Saiba que pode utilizar estes sentimentos como combustível para conseguir ainda mais neste trabalho interior de resgatar o poder do auto-sabotador.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

As máscaras humanas: o Espiritual

Não podemos confundir a pessoa que procura experienciar a sua espiritualidade com a máscara do Espiritual: são duas pessoas opostas. É fácil descobrir a máscara do Espiritual. É aquela pessoa que nunca mente, nunca sente inveja, nunca é invadido por um pensamento negativo, nunca se preocupa com o dia de amanhã, nunca roubou nada (para ele, chegar atrasado não é roubar tempo a quem espera). Por outro lado, tem sempre um sorriso estampado na face. Aceita sempre os outros como são (exceptuando, claro, os pedófilos, assassinos, condutores embriagados e políticos que não sejam espirituais). Na verdade o Espiritual julga as pessoas em vez das acções cometidas por estas. Só há um problema que afecta verdadeiramente o Espiritual: um medo aterrador que alguém descubra a sua máscara e veja a falsidade da sua existência.

O Espiritual surge a partir da negação de todos os aspectos considerados maus e rejeitados pela humanidade. Um predador mascarado de vítima. A sua bondade é maior que o mundo e, no entanto, estão sempre a acontecer-lhe coisas más (as quais interpreta como “fazendo parte do seu processo de aprendizagem”). O Espiritual vive em tal estado de negação que é incapaz de ver a hipocrisia dos seus gestos.

É presunçoso, arrogante, egoísta, mesquinho e falso. Continuamente julga as pessoas à sua volta para validar a sua superioridade. Claro que a verdade é que se sente completamente perdido e inútil. O sentimento de não fazer parte da sociedade leva-o a gastar tempo e dinheiro na sua imagem. Se for homem dedicar-se-á ao yoga e musculação e a produtos de beleza, se for mulher, para além do yoga e dos produtos de beleza, é capaz de não resistir à tentação das operações plásticas. Mas em qualquer caso vivem aterrados que outros descubram que a sua aparência jovem se deve aos sucessos da indústria dos cosméticos.

O Espiritual perdoa com tal felicidade os que o magoam que é fácil ver a sua máscara. Por vezes o Espiritual é obeso, utilizando o excesso de peso para esconder as suas vergonhas, que podem ir da gula até ao desejo secreto de ver os amigos chegados com problemas, para ser ele a solução dos mesmos. Por vezes a sua vergonha relaciona-se com a perversão sexual, sendo mais tarde descoberto como alguém que passava horas em websites pornográficos ou mesmo envolvido em escândalos sexuais (não é por acaso que a Igreja Católica é assolada com frequência com histórias de padres pedófilos).

Devido muitas vezes à sua incapacidade de um relacionamento íntimo, tem a tendência a escolher uma religião onde o celibato seja obrigatório. Pode ainda optar por uma religião que não seja completamente conhecida das pessoas que o rodeiam (um amigo meu, hinduísta, ficou chocado quando lhe expliquei que os hinduístas criavam estátuas eróticas, que no ocidente são consideradas pornográficas, como forma de trabalhar os seus aspectos de escuridão).

É um predador nato porque, apesar de aparentar ser uma pessoa boa e cheia de boas intenções, no fundo alimenta um desejo de ver desgraça à sua volta para poder assim negar a sua própria insegurança e inutilidade, e ser útil aos outros. Irá, directa ou indirectamente, criar situações desagradáveis à sua volta para poder ser o Salvador. Está sempre disponível para dar um conselho amigo a quem o quiser ouvir, mas, se prestar bem atenção, ser-lhe-á fácil ver que os conselhos que dá são precisamente os que precisa de ouvir ele mesmo.

O Espiritual é aquela pessoa que se oferece para lhe fazer uma sessão qualquer de cura energética (desde o reiki até ao chi-gong), mas que antes tem que se proteger (claro que não é capaz de ver que se tem que se proteger está na verdade a ter medo e a convidar o medo para a equação da cura).

A vergonha do Espiritual é o sentimento de inutilidade, sentir-se imperfeito, e o peso de um complexo de inferioridade atroz. A necessidade de dispensar continuamente a sua bondade causa-lhe um desgaste energético que tenta compensar com todo o tipo de terapias alternativas. E o dinheiro que gasta com a sua imagem é a fonte de muitas das suas preocupações.

O desafio do Espiritual é ver que é tão perfeito e imperfeito como qualquer outro ser humano. Aceitar que os seus actos são causados pelo egoísmo natural de querer ele mesmo ser mais. Reconhecer que não tem que ser o exemplo para ninguém a não ser ele mesmo. Tem que aceitar que pode expressar todos os seus sentimentos e não apenas os que julga apropriados, mas fazê-lo de uma maneira saudável. Permitir-se expressar a raiva que guarda desde uma tenra idade e fazer as pazes com o seu lado de escuridão.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

História dos sapos

Há um mito hinduísta que nos conta muito bem qual a natureza da solidão – como surge e o que podemos fazer.

Havia um rei muito bondoso e rico, que governava o seu reino com o coração. Todos os seus súbditos o admiravam e procuravam para resolver qualquer situação difícil. Um dia o rei saiu à caça, com um grupo de amigos. À entrada da floresta viu um veado, o qual se encontrava apenas a uns metros para além do alcance da sua flecha. O rei decidiu ir atrás do veado. Quanto mais o rei se aproximava do animal, mais este se afastava. O rei não desistiu. Cavalgou meio dia atrás do veado, o qual conseguia manter-se sempre apenas a uns metros fora do alcance das flechas do rei. Depois de muitas horas a perseguir o veado, o rei apercebeu-se que estava perdido na floresta, longe dos seus amigos e de tudo o que lhe era familiar. E o veado tinha desaparecido completamente do seu campo de visão. Perdido e sem saber como regressar, o rei fez o que era mais sensato: sentou-se e ficou à espera que alguém o encontrasse. Enquanto esperava começou a ouvir um canto melodioso, uma voz doce, sensual e muito feminina. Levantou-se e seguiu a voz que cantava muito perto. Numa clareira viu uma jovem encantadora, sensual e bela. O rei dirigiu-se até ela e perguntou-lhe se era livre, se estava disponível para ser a sua rainha. A jovem, que reconhecera o rei, ficou encantada. Claro que queria ser a sua rainha. Um rei jovem, belo, bondoso e sábio! Mas não querendo magoar o seu pai disse ao rei que este tinha que pedir autorização ao patriarca. Ambos caminharam até à cabana onde um velho se encontrava sentado à entrada. O rei disse ao velho quem ele era e quais os seus propósitos. Claro que o velho ficou radiante com a possibilidade da sua filha vir a ser a rainha daquele reino! Mas não querendo parecer fácil, exigiu algo em troca da filha. Pediu ao rei que poderia levar a sua filha e torná-la na sua rainha, com uma condição: jamais poderia deixar que a sua filha visse água. O pedido foi feito apenas para não mostrar ao rei que tanto o velho como a sua filha eram fáceis. Não havia nada de especial no pedido.

O rei prometeu que jamais deixaria que uma única gota de água fosse vista pela sua futura rainha. O palácio do rei ficava num lugar belo, ao lado do rio Ganges. O rei mandou construir uma enorme parede entre o rio e o palácio, para que a sua rainha não visse água. Mandou ainda retirar todas as fontes dos jardins do palácio. Sempre que chovia ele acompanhava a rainha dentro do palácio, para que esta não se sentisse só e, ao mesmo tempo, não visse a chuva.

Tão preocupado andava o rei com esconder a água da sua bela rainha que começou a descurar os assuntos do reino. Todos os súbditos se queixavam. O rei não queria saber de nada nem ninguém, apenas a sua rainha era importante. E os assuntos do reino começavam a criar o caos.

Um dos súbditos, mais fiel ao rei, pediu-lhe que lhe dissesse o que se passava. O rei contou-lhe então a história da água. E disse-lhe ainda como se sentia triste por ele próprio não ver água. O súbdito arranjou logo uma solução: construir uma fonte no jardim real e escondê-la com arbustos por forma a ser impossível vê-la. Apenas o rei saberia da sua existência, e sempre que sentisse saudades da água, poderia afastar os arbustos e contemplar a fonte. Isto foi feito de imediato. O rei recuperou a sua alegria na companhia da sua bela rainha e os assuntos do reino começaram a ser resolvidos com bondade e amor.

Mas eis que um dia, estava o rei distraído, a sua bela rainha passeava pelo jardim real e, ouvindo o correr da água, espreitou por entre os arbustos. Imediatamente, ao ver a água, a rainha desapareceu. No seu lugar havia um sapo. O rei, ao presenciar toda a situação, entrou num profundo desespero silencioso. Como poderia aquilo ser possível? Como poderiam ter-lhe roubado a sua rainha?

Carregado pelo desejo da vingança, o rei mandou matar todos os sapos do reino. Todos os dias aldeões carregando sacos cheios de sapos mortos apareciam ás portas do palácio para receber uma recompensa. E o dinheiro do reino era assim desperdiçado. Milhões de sapos eram dizimados para aplacar a sede de vingança do rei. E o rei sentia-se cada vez mais só, mais triste. Nada, nenhum ouro, nenhuma pessoa conseguia acalmar a ira e a solidão do rei. Esta é a forma mais cruel de solidão.

Até que o rei dos sapos, não aguentando mais ver os seus congéneres a serem dizimados, foi ter com o jovem rei e disse-lhe: “Jovem rei, tu estás a exterminar toda a minha espécie. Eu sou o pai da tua rainha. Ela regressou à terra dos sapos no dia em que quebraste a tua promessa.” O rei ouvia o sapo e sentiu compaixão pelo animal. Fez as pazes com o sapo e, como resultado, o rei sapo devolveu a sua filha ao rei, beijando o sapo que se encontrava junto à fonte. A rainha voltou à forma humana em todo o seu esplendor. O rei resgatou a sua alegria e a rainha passou a poder desfrutar da água sem correr o risco de voltar a ser sapo.

Se substituir a palavra ‘água´ pela palavra ‘realidade’ irá começar a compreender esta bela história. Pedir que a sua filha nunca visse água era pedir que ela nunca fosse sujeita a enfrentar a realidade. Cada relação amorosa, cada paixão, transporta este pedido, esta proibição. Irá funcionar desde que não fique sujeita a enfrentar a realidade. No nosso dia-a-dia isto é muito real. Damos o nosso Ouro a outro para que o carregue por nós, mas eventualmente este Ouro tem que voltar a nós – o encontro com a realidade. Neste momento, se não estivermos conscientes do que se está a passar, todo o romance, toda a paixão, é dissolvido imediatamente. Vemos o outro por quem é na verdade, sem o nosso Ouro, o qual se torna num fardo pesado para nós.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Uma história para adormecer

Havia na Índia, há centenas de anos atrás, um príncipe muito rico. Tinha os melhores ministros a governar o seu reino e, por isso, nunca tinha que se preocupar com os súbditos. Os ministros encarregavam-se de governar enquanto ele se dedicava aos seus prazeres. Passeava, caçava, fazia enormes festas e tinha várias amantes. Vivia feliz sabendo que o seu povo estava bem entregue nas mãos dos seus ministros.

Um dia acordou pela manhã e reparou que tinha na sua coxa direita duas pequenas manchas vermelhas que o incomodavam. Acreditando que tinha sido picado por pulgas, mandou queimar toda a roupa da sua cama e não pensou mais no assunto. Foi caçar com alguns dos seus guardas e ao fim do dia deliciou-se com um enorme banquete. Quando se foi deitar reparou que as duas manchas vermelhas eram agora dois enormes olhos que pareciam cheios de raiva. O príncipe ficou preocupado e mandou chamar os seus médicos.

Os médicos aplicaram-lhe óleos e fizeram massagens. As duas manchas pareceram diminuir de tamanho e o príncipe adormeceu sem mais pensar no assunto. Quando acordou no dia seguinte já as duas manchas pareciam novamente dois olhos enraivecidos. Mas a sua coxa estava pior! Agora aparecia também uma protuberância que se assemelhava a um nariz e uma boca retorcida. Cheio de dores, o príncipe mandou chamar novamente os seus médicos. Estava aterrorizado com o aspecto daquela ferida na coxa. Tinha tons avermelhados e arroxeados e expelia pus. Os médicos decidiram cortar aquela ferida horrorosa.

O príncipe passou alguns dias na cama, a recuperar da operação que lhe tinha salvado a perna. Ficou aliviado quando voltou novamente a viver a vida prazenteira que sempre tinha vivido. Voltou a caçar, a passear, a divertir-se com enormes banquetes e festas intermináveis.

Passaram-se alguns meses. Um dia o príncipe acordou cheio de dores na coxa direita. A ferida tinha voltado, e desta vez com muita mais ferocidade. Dois olhos enormes esbugalhados e enraivecidos olhavam o príncipe com desdém. Do nariz ensanguentado até aos lábios roxos saía um liquido viscoso e fedorento. Desesperado e cheio de dores, o príncipe gritou pelos seus médicos que o acudissem. Mas os médicos não sabiam o que fazer.

Foi então que um dos seus servos mais chegado lhe falou na fonte de Kwan-Yin. Uma fonte milagrosa abençoada pela própria deusa da compaixão. Dizia-se que todos os que se banham-se nas suas águas eram curados. Sem mais demoras o príncipe pegou nos seus guardas e dirigiu-se até à fonte. A cara monstruosa que crescia na sua perna tornava-se mais e mais irritada e agressiva.

Depois de algumas horas a cavalgar chegaram próximo da fonte. Uma velha sentada à beira do caminho avisou o príncipe de que apenas a pessoa que procurava a cura de Kwan-Yin poderia avançar a partir daquele ponto. O príncipe deixou os guardas e o seu cavalo e, a muito custo, dirigiu-se até à fonte.

Sentou-se à beira da fonte e começou a deitar água sobre a enorme ferida que odiava, para que esta desaparecesse para sempre. Foi então que a ferida lhe falou: “porque tentas destruir-me se todo este tempo e nunca olhaste para mim, nem quiseste ouvir uma única palavra que eu te dizia? Será que não és capaz de me reconhecer?”

O príncipe olhou para a ferida com mais atenção e foi então que viu uma cópia distorcida da sua própria face. As suas lágrimas de dor começaram a cair sobre a ferida. À medida que as lágrimas caiam sobre os olhos na sua coxa direita, estes começaram a transformar-se nos olhos da própria Kwan-Yin, a qual lhe diz: “Nunca tiveste um coração compassivo. Nunca tiveste um acto de benevolência. De que outra maneira poderia eu chamar-te para a tua verdadeira natureza?”

O príncipe e a deusa passam horas a conversar sobre o segredo do seu sofrimento, o qual tinha surgido muitos anos antes da ferida na coxa. Quando por fim nasceu o novo dia, a ferida do príncipe estava completamente curada.

Talvez o nosso próprio sofrimento interior seja a causa das nossas doenças. As nossas vergonhas e arrependimentos secretos se manifestem no corpo fisicamente, nos nossos músculos e ossos, nas artérias e nervos. Talvez até dentro das nossas pequenas células, acorrentados no interior por memórias de eventos que ocorreram e não deveriam ter ocorrido. E aí permanecem, repousando num silêncio mortal, escorraçados para a escuridão. Para surgir anos mais tarde como um tumor pernicioso, uma artéria obstruída, uma onda de ansiedade envolvente, ou uma dor misteriosa e sem diagnóstico a que chamamos dor crónica. É no sofrimento dos nossos sintomas que muitas vezes a sombra se materializa.

A nossa sombra emocional – o pessimismo, a depressão, o cinismo, a agressividade – possui um equivalente físico. Embora um não cause necessariamente o surgimento do outro de uma forma simples e linear, parece óbvio que partilham uma evolução em que as fronteiras de um se cruzam com o outro. Por este motivo é possível fazer trabalho da sombra através do corpo ou da mente. Idealmente um bom trabalho da sombra envolve-nos a nível mental, emocional e físico.

A pergunta que lhe deixo para reflectir: qual é a sua vergonha? Qual é o segredo que tem medo que outros descubram sobre si? E o que pode fazer para expor o seu segredo ainda hoje?

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Uma pessoa – muitas pessoas

Em cada um de nós há uma série de subpersonalidades (em psicologia o termo utilizado é “complexos”). Não podemos cair na asneira de acreditar que conhecemos quem quer que seja, porque nunca iremos conhecer a totalidade da pessoa com quem partilhamos um momento ou uma vida.

As nossas subpersonalidades formam-se antes de sermos capazes de construir um raciocínio lógico capaz de filtrar a informação vinda do exterior. E muitas das subpersonalidades são-nos tão repugnantes que optamos por fechá-las num recanto escuro da nossa mente. Pensamos que aí, na escuridão, não causarão qualquer problema. Fazemos isto por um único motivo: ser aceites pelos outros.

Imagine uma criança de 4 anos que mente à mãe e é apanhada na mentira. A mãe, tendo como único objectivo ensinar a criança a viver em sociedade, diz à criança que mentir é feio. Dependendo da forma como esta mensagem é transmitida, a criança pode escolher ignorar a admoestação da mãe ou, caso seja severamente castigada, decidir esconder o aspecto de si capaz de mentir. De uma maneira simplista a criança decide que jamais voltará a mentir. Mais tarde essa mesma criança é apanhada pelo pai a roubar o brinquedo de outra criança. Se o pai possuir as características do tirano ou do moralista, irá punir a criança. Explicar à criança que roubar é errado, fazê-la ver a situação sem qualquer interpretação moralista, e ajudar a criança a descobrir de que maneira o acto de roubar pode ser útil (e há situações em que pode ser útil, acredite) seria a atitude mais apropriada. Mas isto ocuparia algum do tempo do progenitor. Por outro lado, se o pai tiver as suas próprias feridas emocionais relacionadas com o furto irá projectar estes aspectos no filho e punirá de acordo com a infracção. E a criança decide que jamais roubará – outro aspecto da sua personalidade que é abafado na mente subconsciente. Pouco tempo depois a criança faz um desenho que é o orgulho da tia. A tia mostra a toda a gente, à frente da criança, a criatividade e brilhantismo da mesma. Elogia-a sem fim! Se a criança tiver uma tendência para a timidez irá sentir-se mal com os elogios e com o facto de ser o centro das atenções. E mais uma vez, decide que ser criativo é contraproducente e esconderá este aspecto na sua mente subconsciente.

Por volta dos 20 anos, estaremos perante um adulto que não mente, não rouba nem é criativo. Mas estes aspectos estão todos em si! E cada um deles irá criar uma batalha na sua psique porque cada um quer ser experienciado. Daí que eu diga “aquilo que tu não queres ser, não te deixará ser”. O jovem torna-se na verdade incompleto. A partir daqui várias situações irão surgir.

O jovem poderá escolher projectar os aspectos que rejeita em si. Assim, irá atrair a si pessoas que mentem, roubam e que são genialmente criativas. Estas pessoas existem apenas para lhe mostrar as partes de si que está a deserdar. Nós somos animais sociais e é através da socialização que aprendemos sobre quem somos. Contudo, em qualquer ambiente social em que nos encontremos há sempre uma pessoa que não conseguimos ver: nós próprios. Como não nos conseguimos ver iremos projectar aspectos de nós sobre os outros. Uma forma brilhante de descobrirmos quem somos: o santo e o pecador, a luz e a escuridão. Não conseguimos estar muito tempo na luz sem ter a experiência da escuridão.

O jovem acima descrito irá ainda fazer exactamente aquilo que não aceita nele. Irá mentir, roubar e ser criativo. Mas fá-lo-á de uma maneira velada, em que ele próprio não tem consciência de o estar a fazer. Pode mentir quando afirma que está bem e não está. Pode roubar tempo aos outros, chegando sempre atrasado a qualquer compromisso, e poderá ser bastante criativo nas suas desculpas.

Este jovem irá atrair a si, para vivenciar uma relação a dois, a pessoa que melhor lhe mostre todos os seus aspectos rejeitados. De início irá ver na pessoa que é objecto da sua atenção apenas os aspectos positivos, como a criatividade. Depois de oficializada a união, os aspectos negativos projectados na outra pessoa começarão a mostrar a sua feia cara. É comum a muitas pessoas, quando se encontram próximas do divórcio, afirmarem que não conhecem a pessoa com quem se casaram. A verdade é que elas não se conhecem a si mesmas.

Por volta dos quarenta anos de idade, os aspectos negados da sua personalidade terão obtido energia suficiente para causar danos na vida desta pessoa. A Debbie Ford explica este fenómeno de uma maneira fácil de compreender. Imagine que cada aspecto que rejeita em si é uma bola de praia. Há uma bola da estupidez, outra da arrogância, outra do egoísmo, outra ainda da prepotência, outra da mentira, outra da infidelidade. Cada um de nós possui pelo menos umas vinte bolas. E como temos pavor que os outros descubram estes aspectos deserdados, iremos gastar uma energia descomunal a manter cada uma das bolas debaixo de água, para que ninguém as consiga ver. E, se possível, para que nós mesmos não as consigamos ver. A energia que utilizamos para manter estas bolas fora do nosso campo de visão é a da raiva. A energia mais poderosa que algum ser humano é capaz de possuir.

Num momento de distracção, em que pensamos que a nossa vida não podia estar melhor, estas bolas saltam! E vão molhar muitas pessoas! Irão magoar-nos a nós e aos que nos são queridos. E vemos isto todos os dias!

O condutor que insulta outro e ameaça, podendo chegar ao extremo de sair do carro para agredir. O padre que é descoberto a “dedicar-se” à pedofilia. A boa mãe que bate no filho num centro comercial. A empregada doméstica que rouba um anel da patroa. O político que usa o seu poder para beneficiar um amigo. O director da empresa que se deixa subornar. A professora que tem um caso com um aluno menor. A boa rapariga que come mais do que precisa e se torna obesa. O juiz que se descobre pertencer a uma rede de prostituição.

Basta-nos ver um telejornal para verificar a sombra em acção. Os nossos aspectos deserdados.

Por detrás destes comportamentos inapropriados há apenas a vergonha, a culpa, o medo e a raiva. Emoções tóxicas que surgiram na infância e adolescência e não foram devidamente reconhecidas nem expressas. E que eventualmente serão a causa dos danos que causamos a nós próprios e aos que nos são queridos. Ninguém é inocente. As pessoas mais perigosas são precisamente as que se encontram em estado de negação ou que são moralistas. São estas as que possuem a sombra mais densa e nefasta. Parece um pesadelo de antagonismos. Mas a pessoa boa que não é capaz de reconhecer os seus impulsos mais animais é a que é capaz das maiores atrocidades.

Temos que nos recordar continuamente que de cada vez que apontamos o dedo a alguém, há três dedos a apontar na nossa direcção.

É aqui que o sentimento de compaixão é importante. Em vez de nos apressarmos a julgar os outros, seria mais apropriado julgar a acção. Porque a pessoa que mente não é mentirosa. É mentirosa e honesta. É maldosa e bondosa. É bela e feia. É traiçoeira e fiel. E cada um de nós pode escolher o que quer ver. Posso escolher ver que uma pessoa mentiu, mas o acto de mentir é apenas um de muitos aspectos da pessoa. Se reparar à sua volta irá ver que as pessoas que mais danos lhe causaram são as mesmas pessoas capazes do maior gesto de bondade.

Por este motivo é que afirmo que o divórcio pode ser um catalizador para o nosso crescimento espiritual. Se formos capazes, se tivermos a coragem, de resgatar todos os aspectos que víamos na pessoa que deixámos de amar.

O maior passo que pode dar no seu crescimento pessoal é precisamente resgatar tudo aquilo que vê nos outros. Nós gastamos uma quantidade considerável de energia a esconder os nossos aspectos de vergonha e culpa. Enquanto não tivermos a coragem de mostrar a nossa vulnerabilidade, a nossa humanidade, as nossas feridas, nunca teremos disponível a energia suficiente para vivermos na autenticidade de quem somos. E iremos continuamente sabotar os nossos maiores sonhos. Não é por acaso que a grande maioria das pessoas desconhece completamente qual o seu propósito nesta vida.

Para terminar, e escrevendo principalmente para as pessoas que começaram a receber esta newsletter nos últimos meses, informo que tudo o que escrevo é um acto egoísta e de burrice da minha parte. Escrevo-o para mim, para eu aprender. Há uns tempos atrás fiz um jogo comigo mesmo que senti ter-me sido útil ao ponto de me dar um grande empurrão para a frente. O jogo é simples: escrever num caderno os aspectos da personalidade dos que me são chegados e que me perturbam. Depois dedico um dia para cada aspecto: descobrir ao longo do dia de que maneira eu expresso o mesmo aspecto. Torna-se muito difícil não gostar de quem quer que seja depois deste exercício. O bónus: as pessoas à nossa volta mudam à medida que vamos resgatando os nossos aspectos deserdados J

Desejo-lhe uma boa semana!