sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

As crianças não são estúpidas

Será que é função dos pais defender os seus filhos quando outros os agridem verbalmente? Será que quando uma criança ofende o seu filho, chamando-lhe “burro”, por exemplo, você, como pai ou mãe, deve correr a apoiar o seu filho e negar que ele é “burro”?

Não. Se um pai quiser educar verdadeiramente um filho irá prepará-lo para a vida de uma forma mais inteligente e eficiente.

Em primeiro lugar ensinar as crianças que cada aspecto que vêem nos outros está já neles, caso contrario não seriam capazes de o ver. Como é que sabemos o que é uma “burrice” se nós próprios nunca passámos por essa experiência? Como é que sabemos o que é um “cobarde” sem termos passado por um momento de cobardia?

Este processo de educação emocional, com crianças, processa-se através de um método que se chama “questionar a realidade”.

Numa primeira fase o pai pode mostrar ao filho as suas qualidades, boas e “más”, com um diálogo que dá poder à criança. Por exemplo, o filho chega a casa e diz aos pais que a professora é “parva”. O pai pode perguntar à criança o que significa “ser parvo”. Este passo é importante porque o conceito de “parvo” é subjectivo, sobretudo para uma criança. Suponhamos que a criança responde que “parvo” é a pessoa que diz disparates. O passo seguinte é o pai perguntar ao filho que disparates é que ele costuma dizer.

Este questionar deve ser feito sempre mostrando gratidão e amor pela presença do filho, e nunca com uma atitude acusatória.

Desta forma o filho começará a ver que ele próprio também fá foi “parvo”. De seguida o pai pode mostrar ao filho de que forma ele próprio também já foi “parvo”. Permitir que a criança descubra por si que todos nós já tivemos atitudes “parvas” e que é ok. Somos humanos.

Pode depois ajudar ainda mais a criança, pedindo-lhe para pensar em situações em que ser “parvo” pode ser útil. Este processo pode demorar algumas horas ou dias. Permita que a criança descubra por ela mesma de que maneira expressar este aspecto pode ser benéfico.

E, para terminar este processo, ensinar à criança que sempre que apontamos o dedo a alguém, há três dedos a apontar para nós. Isto é a forma mais corajosa e iluminada de ensinar uma criança. Sempre que alguém lhe apontar o dedo e a acusar de algo, é de si que está a falar. Isto não significa que a criança está automaticamente desculpada e impune. Significa que não deve levar a peito qualquer acusação que lhe é feita, porque aquele que acusa é igual a si. Desta forma a criança começa a aprender, sem sequer se aperceber, o que significa amar incondicionalmente.

O maior obstáculo a este processo é a falta de tempo que muitos pais parecem não ter para educar verdadeiramente os filhos.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Fazer Nada

Quase todo o sofrimento humano se deve à luta que cada um de nós trava incessantemente contra a realidade.

A realidade é aquilo que está a acontecer agora, sem a imposição de uma interpretação pessoal.

Quando algo está a acontecer e eu digo que não quero esse acontecimento estou a lutar contra a realidade. Adivinhem quem ganha?

A atitude apropriada é observar o que está a acontecer e o que eu posso fazer tendo em conta o que está a acontecer. Sem uma interpretação pessoal. Este é o aspecto mais difícil. Em realidade eu nunca vou saber porque motivo os outros têm as atitudes que têm. Nunca irei saber porque motivo me acontecem as coisas que me acontecem.

A interpretação da realidade é sempre feita a partir de uma história pessoal que tem como tema “coitadinho de mim”. São sempre os outros os maus da fita. Eu ganho o papel de vítima. Se não fossem os meus pais. Ou o meu patrão. Ou o país em que vivo. Ou o sistema económico. Ou o meu mestre. Procuramos sempre alguém com mais responsabilidade sobre a nossa vida do que nós próprios. E isto só pode atrair dissabores.

Esta vitimização está de tal forma enraizada na nossa sociedade que agora conseguimos ir ainda mais longe neste processo. Já há depressões causadas por genes (coitado de mim, está nos meus genes ser depressivo)! No campo da saúde procuram-se respostas em todo o lado, excepto onde elas se encontram: dentro de cada um.

Mas de cada vez que eu declaro ser outra a pessoa responsável por algo que me sucede a mim estou a entregar o poder da minha vida a essa outra pessoa. Estou a afirmar o coitadinho em mim. E a vida irá encarregar-se de me mostrar que tenho razão. Tornando-me ainda mais coitadinho.

Se está com dores no corpo, dizer que não quer essas dores é lutar contra a realidade. Porque a realidade diz que a dor está instalada. Mas pode procurar ajuda para descobrir a causa da dor. Primeiro aceita que tem dores e depois procura ajuda. Mas afirmar que não quer ter dores é o mesmo que dizer que não quer a realidade presente.

Se nos permitirmos abrir-nos o suficiente para ir bem dentro de nós é relativamente fácil descobrir a causa da dor. O nosso corpo dar-nos-á a resposta.

Quando alguém erra para comigo as primeiras questões que tenho que me fazer são: porque permiti este evento? O que há neste evento para eu aprender? De que forma este evento contribui para o meu processo evolutivo? Quem é que responsabilizo por este evento?
Enquanto forem outros os responsáveis pelo que me sucede o poder sobre a minha vida é nulo. Todos deterão poder sobre mim.

Argumentar contra a realidade é um comportamento típico de alguém com graves perturbações mentais. Porque não podemos fazer rigorosamente nada para destruir a realidade que está a acontecer neste momento. Esta atitude é semelhante a outra que muitos de nós temos: fazer todos os dias as mesmas coisas à espera que os nossos dias mudem. Ninguém parece notar que se hoje eu fizer o mesmo que fiz ontem, amanhã irá ser um dia igualzinho a ontem.

Lamentarmo-nos porque chove não vai trazer o sol. Queixarmo-nos contra o cão do vizinho que ladra à noite não vai tornar o cão mudo. Mas podemos adaptar-nos sempre à realidade. Se está a chover podemos vestir uma gabardine e abrir o chapéu de chuva. Se o cão ladra durante a noite podemos colocar tampões de silicone nos ouvidos. Isto são só exemplos. Há muito mais que podemos fazer. Mas lutar contra a realidade é uma perda de energia que nunca dará frutos.

Por outro lado a realidade raramente é aquilo que nós pensamos ser. Interpretamos os eventos quase sempre por forma a justificarmos a nossa impotência. Muito raramente as coisas são aquilo que nós acreditamos que sejam.

Sempre que sentir emoções desconfortáveis (medo, raiva, vergonha, culpa, falta de esperança) vá dentro de si. Permita-se fazer as perguntas que têm o poder de acalmar a mente. Isto que eu penso estar a acontecer é verdade? Tenho a certeza absoluta que é verdade? Quem é que eu seria sem esta crença?

Na maioria das vezes aquilo em que acreditamos não é real. São crenças por nós criadas para justificarmos o coitadinho da nossa história.

Ficarmos irritados com o comportamento de outro nunca será uma solução. Mas podemos aceitar esse comportamento e mudar a nossa perspectiva. E quando o comportamento de outros nos afecta fisicamente temos obrigação de o fazer saber à pessoa que nos está a afectar. Quando alguém abusa de nós fisicamente, ou rouba o nosso tempo, ou não cumpre com as suas obrigações. Mas quando alguém “abusa” de nós porque “não deveria ser assim” esta atitude só nos pode causar problemas a nós. Dois exemplos distintos:

- Quando um filho não estuda, os pais têm a obrigação de se certificar que o faz. Isto é aceitar a realidade (o filho não estuda) e agir a partir dessa realidade (exigir o estudo). Queixar-se de que o filho não estuda, ou ficar irritado, ou magoado, ou preocupado é lutar contra a realidade. Não funciona. Só causa danos ao progenitor.

- Quando deixa queimar o jantar. Pode deitar tudo ao lixo e preparar um jantar diferente (feito de torradas e chá, por exemplo). Isto é aceitar a realidade e agir a partir dessa mesma realidade. Entrar em pânico, gritar, insultar o fogão ou culpar os outros porque estão sempre à espera que seja você a fazer o jantar, é lutar contra a realidade. Não trará resultados positivos, posso garantir-lhe.

Nós lutamos contra a realidade de cada vez que julgamos as pessoas à nossa volta. Lutamos contra a realidade de cada vez que nos queixamos. Lutamos contra a realidade de cada vez que dizemos que não gostamos das coisas como elas são e informamos quem nos quiser ouvir de que como é que as coisas deveriam ser.

O aspecto mais pernicioso desta luta contra a realidade é este: só conseguimos ver nos outros o que está já em nós. Quando nos queixamos de outros é de nós que nos estamos a queixar.
Experimente só hoje aceitar a realidade tal como ela se apresenta. Se está triste aceite o facto de estar triste. Se está cansado, aceite este facto. Se se sente sem esperança, aceite esse sentimento. É a realidade. E depois pergunte-se: o que poso fazer a seguir para me sentir diferente?... Talvez pensar coisas diferentes, fazer coisas diferentes. Ou simplesmente abanar os braço e gritar “que se lixe!”

Uma boa semana a todos.

Emídio Carvalho