domingo, 3 de julho de 2016

Um encantamento atractivo


Acreditamos que se formos pessoas atractivas a nossa vida será fácil, ou pelo menos será fácil atrair alguém que desejamos. Tornar-se atraente ao outro. E as mil e uma maneiras como o podemos fazer.

Há sete passos para o sucesso, ou quinze segredos da felicidade, ou as vinte virtudes para viver bem, ou uma gigantesca lei da atracção.

Isto é tentar vender a ideia que é possível controlar a vida. De alguma forma temos o poder de atrair o que desejamos.

As aranhas são boas nisto da atracção. Constroem teias para atrair a próxima refeição. E embora sejam boas a construir a teia, sem necessidade de recorrer aos sete passos para o sucesso nem aos quinze segredos da felicidade, a realidade é que na teia pode cair uma mosca ou gafanhoto (happy meal!) como pode cair um turista desatento que obrigará a pobre aranha a construir nova teia. Se ao menos as aranhas soubessem e aplicassem a lei da atracção, nunca passariam fome! Claro que os restantes insectos aprenderiam também a famosa lei da atracção e... Começam a imaginar o desarranjo na fauna.

Muitas terapias e movimentos filosóficos tentam ensinar formas de controlar a vida. Se aprenderes a usar roupa como deve ser e a colocar maquilhagem como uma profissional de dança burlesca, o homem dos teus sonhos irá sentir-se atraído por ti, tal como a mosca é atraída pelo brilho da teia da aranha. A questão é se tu queres um companheiro que gosta de ti por seres quem és, ou por teres criado uma imagem atractiva. Manter uma imagem sai muito caro. A imagem do bom pai, da boa esposa, do bom funcionário. Todos muito bons. Podem é ter que pagar um preço muito elevado por tanta bondade que é imagem.

Em pequenos contam-nos histórias de princesas e príncipes que acabam sempre felizes. Claro que é bom que as histórias terminem no momento em que o casal assume que será feliz para sempre, antes que apareçam os filhos, o desemprego, a doença, etc. Isso não se pode contar porque destrói o mito do feliz para sempre.

Um ser humano completo é feito de alegria e tristeza, saúde e doença, labuta e preguiça, calma e tensão, paz e guerra. Pelo menos por agora. E querer só uma parte do ser humano é condenarmo-nos a uma vida de sofrimento.

Em realidade queremos que os outros se comportem como nós queremos. Da mesma forma que a aranha só quer na sua teia aquilo que pode devorar (esta comparação com os aracnídeos está a tornar-se um bocado tétrica, parece-me).

Observa o que acontece quando gostas de alguém. Observa o que sentes. Tu és isso que sente. Sem palavras, sem explicações, sem necessidade de compreender o que raio se está a passar, para além do facto de que te sentes bem. Mas se precisares que o teu gostar seja retribuído, se for necessário que a pessoa de quem gostas goste também de ti, poderás perder o sentimento de gostar.  E é ao perder este sentimento, porque o teu gostar não é validado ou retribuído, que perdes a presença de ti mesmo. Abandonas-te.

Gostar dos outros é a tua função. De quem os outros gostam não te diz respeito.

Quanto a controlar a vida, andamos a tentar fazê-lo há já algum tempo. Não me parece que seja possível. 

Aqueles chavões de “tu és capaz” ou “nada é impossível” são mesmo e só isso: chavões. Não tentes ser mais do que és, irás falhar. Não tentes mostrar que és melhor do que és. Ninguém é melhor que ninguém. Cada um de nós está a ser quem é e quem consegue ser. E podemos mudar, obviamente. Podemos mudar porque é um movimento natural ou podemos mudar para sermos melhores que os outros. No primeiro caso iremos experienciar a paz, no segundo iremos fazer guerra com todos aqueles que não concordarem connosco.

O primeiro passo (são sete, li algures) para o bem-estar é conseguires ouvir-te. Em vez de andar aos saltos a tentar agradar a todos e tentar que todos se sintam bem na tua presença, ouve-te. O que é que tu realmente queres? E o que podes fazer? Se não sabes o que queres, é porque ainda não chegou o momento de o saber. Se ainda não sabes o que podes fazer, é porque ainda não chegou o momento de o saber. Descansa. Desfruta do vento na cara. Ou dos gritos dos miúdos à tua volta. Ou da roupa por lavar amontoada a um canto. Tudo está bem como está. E o que é para fazer a seguir? Ouve-te.

Não tentes ser quem os outros querem que tu sejas. Sê quem tu és. E quem tu és será visto pelos outros como bondade e maldade, beleza e fealdade, honestidade e mentira. Completo.
Parece-me muito atractivo.