quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A Solidão

Há um mito hinduísta que nos conta muito bem qual a natureza da solidão – como surge e o que podemos fazer.

Havia um rei muito bondoso e rico, que governava o seu reino com o coração. Todos os seus súbditos o admiravam e procuravam para resolver qualquer situação difícil. Um dia o rei saiu à caça, com um grupo de amigos. À entrada da floresta viu um veado, o qual se encontrava apenas a uns metros para além do alcance da sua flecha. O rei decidiu ir atrás do veado. Quanto mais o rei se aproximava do animal, mais este se afastava. O rei não desistiu. Cavalgou meio dia atrás do veado, o qual conseguia manter-se sempre apenas a uns metros fora do alcance das flechas do rei. Depois de muitas horas a perseguir o veado, o rei apercebeu-se que estava perdido na floresta, longe dos seus amigos e de tudo o que lhe era familiar. E o veado tinha desaparecido completamente do seu campo de visão. Perdido e sem saber como regressar, o rei fez o que era mais sensato: sentou-se e ficou à espera que alguém o encontrasse. Enquanto esperava começou a ouvir um canto melodioso, uma voz doce, sensual e muito feminina. Levantou-se e seguiu a voz que cantava muito perto. Numa clareira viu uma jovem encantadora, sensual e bela. O rei dirigiu-se até ela e perguntou-lhe se era livre, se estava disponível para ser a sua rainha. A jovem, que reconhecera o rei, ficou encantada. Claro que queria ser a sua rainha. Um rei jovem, belo, bondoso e sábio! Mas não querendo magoar o seu pai disse ao rei que este tinha que pedir autorização ao patriarca. Ambos caminharam até à cabana onde um velho se encontrava sentado à entrada. O rei disse ao velho quem ele era e quais os seus propósitos. Claro que o velho ficou radiante com a possibilidade da sua filha vir a ser a rainha daquele reino! Mas não querendo parecer fácil, exigiu algo em troca da filha. Pediu ao rei que poderia levar a sua filha e torná-la na sua rainha, com uma condição: jamais poderia deixar que a sua filha visse água. O pedido foi feito apenas para não mostrar ao rei que tanto o velho como a sua filha eram fáceis. Não havia nada de especial no pedido.

O rei prometeu que jamais deixaria que uma única gota de água fosse vista pela sua futura rainha. O palácio do rei ficava num lugar belo, ao lado do rio Ganges. O rei mandou construir uma enorme parede entre o rio e o palácio, para que a sua rainha não visse água. Mandou ainda retirar todas as fontes dos jardins do palácio. Sempre que chovia ele acompanhava a rainha dentro do palácio, para que esta não se sentisse só e, ao mesmo tempo, não visse a chuva.

Tão preocupado andava o rei com esconder a água da sua bela rainha que começou a descurar os assuntos do reino. Todos os súbditos se queixavam. O rei não queria saber de nada nem ninguém, apenas a sua rainha era importante. E os assuntos do reino começavam a criar o caos.

Um dos súbditos, mais fiel ao rei, pediu-lhe que lhe dissesse o que se passava. O rei contou-lhe então a história da água. E disse-lhe ainda como se sentia triste por ele próprio não ver água. O súbdito arranjou logo uma solução: construir uma fonte no jardim real e escondê-la com arbustos por forma a ser impossível vê-la. Apenas o rei saberia da sua existência, e sempre que sentisse saudades da água, poderia afastar os arbustos e contemplar a fonte. Isto foi feito de imediato. O rei recuperou a sua alegria na companhia da sua bela rainha e os assuntos do reino começaram a ser resolvidos com bondade e amor.

Mas eis que um dia, estava o rei distraído, a sua bela rainha passeava pelo jardim real e, ouvindo o correr da água, espreitou por entre os arbustos. Imediatamente, ao ver a água, a rainha desapareceu. No seu lugar havia um sapo. O rei, ao presenciar toda a situação, entrou num profundo desespero silencioso. Como poderia aquilo ser possível? Como poderiam ter-lhe roubado a sua rainha?

Carregado pelo desejo da vingança, o rei mandou matar todos os sapos do reino. Todos os dias aldeões carregando sacos cheios de sapos mortos apareciam ás portas do palácio para receber uma recompensa. E o dinheiro do reino era assim desperdiçado. Milhões de sapos eram dizimados para aplacar a sede de vingança do rei. E o rei sentia-se cada vez mais só, mais triste. Nada, nenhum ouro, nenhuma pessoa conseguiam acalmar a ira e a solidão do rei. Esta é a forma mais cruel de solidão.

Até que o rei dos sapos, não aguentando mais ver os seus congéneres a serem dizimados, foi ter com o jovem rei e disse-lhe: “Jovem rei, tu estás a exterminar toda a minha espécie. Eu sou o pai da tua rainha. Ela regressou à terra dos sapos no dia em que quebraste a tua promessa.” O rei ouvia o sapo e sentiu compaixão pelo animal. Fez as pazes com o sapo e, como resultado, o rei sapo devolveu a sua filha ao rei, beijando o sapo que se encontrava junto à fonte. A rainha voltou à forma humana em todo o seu esplendor. O rei resgatou a sua alegria e a rainha passou a poder desfrutar da água sem correr o risco de voltar a ser sapo.

Se substituir a palavra ‘água´ pela palavra ‘realidade’ irá começar a compreender esta bela história. Pedir que a sua filha nunca visse água era pedir que ela nunca fosse sujeita a enfrentar a realidade. Cada relação amorosa, cada paixão, transporta este pedido, esta proibição. Irá funcionar desde que não fique sujeita a enfrentar a realidade. No nosso dia-a-dia isto é muito real. Damos o nosso Ouro a outro para que o carregue por nós, mas eventualmente este Ouro tem que voltar a nós – o encontro com a realidade. Neste momento, se não estivermos conscientes do que se está a passar, todo o romance, toda a paixão, é dissolvido imediatamente. Vemos o outro por quem é na verdade, sem o nosso Ouro, o qual se torna num fardo pesado para nós.

(Nota do autor: este conto faz parte de um pequeno manual que escrevi há alguns meses sobre a projecção das nossas melhores qualidades - O Ouro Interior)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A doença como reflexo da sombra

Havia na Índia, há centenas de anos atrás, um príncipe muito rico. Tinha os melhores ministros a governar o seu reino e, por isso, nunca tinha que se preocupar com os súbditos. Os ministros encarregavam-se de governar enquanto ele se dedicava aos seus prazeres. Passeava, caçava, fazia enormes festas e tinha várias amantes. Vivia feliz sabendo que o seu povo estava bem entregue nas mãos dos seus ministros.

Um dia acordou pela manhã e reparou que tinha na sua coxa direita duas pequenas manchas vermelhas que o incomodavam. Acreditando que tinha sido picado por pulgas, mandou queimar toda a roupa da sua cama e não pensou mais no assunto. Foi caçar com alguns dos seus guardas e ao fim do dia deliciou-se com um enorme banquete. Quando se foi deitar reparou que as duas manchas vermelhas eram agora dois enormes olhos que pareciam cheios de raiva. O príncipe ficou preocupado e mandou chamar os seus médicos.

Os médicos aplicaram-lhe óleos e fizeram massagens. As duas manchas pareceram diminuir de tamanho e o príncipe adormeceu sem mais pensar no assunto. Quando acordou no dia seguinte já as duas manchas pareciam novamente dois olhos enraivecidos. Mas a sua coxa estava pior! Agora aparecia também uma protuberância que se assemelhava a um nariz e uma boca retorcida. Cheio de dores, o príncipe mandou chamar novamente os seus médicos. Estava aterrorizado com o aspecto daquela ferida na coxa. Tinha tons avermelhados e arroxeados e expelia pus. Os médicos decidiram cortar aquela ferida horrorosa.

O príncipe passou alguns dias na cama, a recuperar da operação que lhe tinha salvado a perna. Ficou aliviado quando voltou novamente a viver a vida prazenteira que sempre tinha vivido. Voltou a caçar, a passear, a divertir-se com enormes banquetes e festas intermináveis.

Passaram-se alguns meses. Um dia o príncipe acordou cheio de dores na coxa direita. A ferida tinha voltado, e desta vez com muita mais ferocidade. Dois olhos enormes esbugalhados e enraivecidos olhavam o príncipe com desdém. Do nariz ensanguentado até aos lábios roxos saía um liquido viscoso e fedorento. Desesperado e cheio de dores, o príncipe gritou pelos seus médicos que o acudissem. Mas os médicos não sabiam o que fazer.

Foi então que um dos seus servos mais chegado lhe falou na fonte de Kwan-Yin. Uma fonte milagrosa abençoada pela própria deusa da compaixão. Dizia-se que todos os que se banham-se nas suas águas eram curados. Sem mais demoras o príncipe pegou nos seus guardas e dirigiu-se até à fonte. A cara monstruosa que crescia na sua perna tornava-se mais e mais irritada e agressiva.

Depois de algumas horas a cavalgar chegaram próximo da fonte. Uma velha sentada à beira do caminho avisou o príncipe de que apenas a pessoa que procurava a cura de Kwan-Yin poderia avançar a partir daquele ponto. O príncipe deixou os guardas e o seu cavalo e, a muito custo, dirigiu-se até à fonte.

Sentou-se à beira da fonte e começou a deitar água sobre a enorme ferida que odiava, para que esta desaparecesse para sempre. Foi então que a ferida lhe falou: “porque tentas destruir-me todo este tempo e nunca olhaste para mim, nem quiseste ouvir uma única palavra que eu te dizia? Será que não és capaz de me reconhecer?”

O príncipe olhou para a ferida com mais atenção e foi então que viu uma cópia distorcida da sua própria face. As suas lágrimas de dor começaram a cair sobre a ferida. À medida que as lágrimas caiam sobre os olhos na sua coxa direita, estes começaram a transformar-se nos olhos da própria Kwan-Yin, a qual lhe diz: “Nunca tiveste um coração compassivo. Nunca tiveste um acto de benevolência. De que outra maneira poderia eu chamar-te para a tua verdadeira natureza?”

O príncipe e a deusa passaram horas a conversar sobre o segredo do seu sofrimento, o qual tinha surgido muitos anos antes da ferida na coxa. Quando por fim nasceu o novo dia, a ferida do príncipe estava completamente curada.

Talvez o nosso próprio sofrimento interior seja a causa das nossas doenças. As nossas vergonhas e arrependimentos secretos se manifestem no corpo fisicamente, nos nossos músculos e ossos, nas artérias e nervos. Talvez até dentro das nossas pequenas células, acorrentados no interior por memórias de eventos que ocorreram e não deveriam ter ocorrido. E aí permanecem, repousando num silêncio mortal, escorraçados para a escuridão. Para surgir anos mais tarde como um tumor pernicioso, uma artéria obstruída, uma onda de ansiedade envolvente, ou uma dor misteriosa e sem diagnóstico a que chamamos dor crónica. É no sofrimento dos nossos sintomas que muitas vezes a sombra se materializa.

A nossa sombra emocional – o pessimismo, a depressão, o cinismo, a agressividade – possui um equivalente físico. Embora um não cause necessariamente o surgimento do outro de uma forma simples e linear, parece óbvio que partilham uma evolução em que as fronteiras de um se cruzam com o outro. Por este motivo é possível fazer trabalho da sombra através do corpo ou da mente. Idealmente um bom trabalho da sombra envolve-nos a nível mental, emocional e físico.

A pergunta que lhe deixo para reflectir: qual é a sua vergonha? Qual é o segredo que tem medo que outros descubram sobre si? E o que pode fazer para expor o seu segredo ainda hoje?

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Ressentimento ou Paz de Espírito

Estou a ouvir um álbum da Alanis Morissette intitulado “So-called chaos”, e gosto particularmente de uma faixa que traduzida literalmente significa “este rancor”.

O rancor, ou ressentimento, é uma das emoções mais tóxicas que o ser humano pode experienciar. Rouba-nos quase toda a energia e intoxica o nosso dia-a-dia impedindo-nos de avançar em direcção aos nossos sonhos.

O rancor surge quando sentimos que alguém errou para connosco, alguém nos magoou ou cometeu um acto violento contra a nossa pessoa (físico ou verbal). Ao agarrarmo-nos ao rancor ficamos cegos ao ponto de não conseguirmos ver a nossa parte na equação, a nossa co-criação do evento que nos causa mágoa. Por outro lado, o rancor faz nascer sentimentos de raiva e ódio dentro de nós. Mais emoções altamente tóxicas.

Em realidade, quando sentimos ressentimento é como se estivéssemos presos à pessoa que nos magoou com uma corda de aço. Damos toda a nossa atenção a essa pessoa e, desta forma, toda a nossa energia. Ficamos esgotados. E não somos capazes de ver a lição que o evento tem para nos oferecer. Regra geral, em cada evento que nos causou dor há uma lição de coragem, de auto-estima ou de sacrifício para nós. A palavra sacrifício tem a sua origem no latim que significa “fazer sagrado”. Num sacrifício nós abrimo-nos perante o sagrado e aceitamo-lo nas nossas vidas.

O mais curioso é que, se ainda não se apercebeu, a pessoa que odeia ou por quem sente raiva, muitas vezes nem sequer está consciente do que fez, nem gasta um grama de energia a pensar em si. É muito provável que nem sequer pensa em si! Ou seja, quando sentimos ressentimento é a nós que estamos a magoar. E se a pessoa que nos magoou já morreu isto é ainda pior. Porque enterramos a nossa energia junto com a pessoa que já partiu.

Cada evento doloroso da nossa vida é criado por nós com um único objectivo (que pode ou não estar consciente): apontar o dedo à primeira pessoa que nos causou danos na nossa vida. Regra geral esta pessoa é o pai ou a mãe. Verifique qual é o género das pessoas que mais danos lhe causou ao longo da sua vida. Se forem mais homens é muito provável que ainda esteja a apontar o dedo ao seu pai, porque ele o magoou. Se forem mais mulheres, é à sua mãe que está a apontar o dedo e a dizer, em silêncio, “Comigo erraste!”

E passamos uma vida inteira a criar situações que nos causam dor e nunca ultrapassamos estas situações, porque no fundo acreditamos que a pessoa que primeiro errou connosco deve pagar pelo acto indefinidamente. E só nós é que sofremos. Só nós é que saímos lesados. Não há excepções.

Há alguns anos atrás, vivia em Londres, fui convidado para fazer uma pós-graduação em Nova Iorque durante seis meses. Na altura fiquei cheio de entusiasmo e fui sem pensar duas vezes. Deixei uma amiga, que considerava de absoluta confiança, responsável por cuidar do meu apartamento (regar plantas, pagar a renda, etc.). Deixei-lhe dinheiro na conta bancária suficiente para pagar a renda durante oito meses (na altura vivia num apartamento que estava legalmente alugado a outra pessoa). Quando regressei de Nova Iorque fiquei a saber que o meu apartamento estava vazio (ela tinha vendido literalmente tudo o que tinha) e a renda não tinha nunca sido paga. Vivi 3 dias na rua, enquanto tentava normalizar a minha vida. Durante anos senti um ódio tremendo por esta pessoa. Culpava-me por ter sido estúpido ao ponto de confiar nela. Amaldiçoava o dia em que a tinha conhecido. Desejava-lhe nada menos que a morte. E durante mais de dez anos carreguei ás costas esta mulher que tantos danos me tinha causado. Até conhecer a Debbie Ford.

A primeira coisa que descobri foi que todos os problemas que me causavam mágoa e ressentimento eram sempre, sem excepção, causados por mulheres. Dizer que foi duro para mim descobrir que após estes anos todos ainda culpava a minha mãe pelo que me tinha feito na infância é colocar o sentimento de uma maneira muito suave. Foi brutal. Saber que andei mais de trinta anos a criar situações em que era lesado apenas para poder dizer à minha mãe, vezes sem conta, “tu comigo erraste!”

Depois fiz o processo de descobrir o presente no evento. Aprendi que nunca temos nada, nunca somos donos de nada. Na hora menos esperada a vida encarrega-se de no-lo provar. Aprendi que tudo o que preciso para viver está em mim e não fora de mim. Aprendi que apenas eu sou responsável pela minha vida e que ficar à espera de um salvador, que alguém me venha salvar, é uma ilusão.

E depois o perdão. Porque enquanto não formos capazes de perdoar à pessoa que causou a dor nunca estaremos livres da toxicidade nos nossos corpos. O ressentimento, a raiva e o ódio são as toxinas que criam os cancros. São as toxinas que nos gritam “aprende a lição ou morre”. Sinto muito por colocar as coisas desta forma se a pessoa que estiver a ler isto tem um cancro. Mas é o que eu vejo constantemente. Isto não se aplica ás crianças, por vários motivos que não vou discutir aqui.

Como podemos perdoar as pessoas que nos magoaram? Só o conseguimos fazer depois de ver os presentes, as lições, que cada evento doloroso tem para nos oferecer. É impossível perdoar em piloto automático. Temos que fazer o trabalho todo, passar pelas emoções presentes no evento. É a única forma que conheço de o fazer. E depois estaremos livres do evento e da pessoa. Perdoar significa confrontar a pessoa, se ainda for viva, e fazer-lhe saber que está perdoada. E pedir perdão a essa pessoa, mais que não seja porque a mantivemos presa a nós durante muito tempo. Uma coisa que poucas pessoas reparam é que em cada evento doloroso da nossa vida há pelo menos duas pessoas presentes. Uma delas somos nós. E somos nós que estamos sempre presentes em cada evento doloroso da nossa vida. O que queremos aprender com cada um destes eventos? Porque atraímos cada um deles?

Exercício Prático:

Procure um momento em que não seja interrompido e feche os olhos. Comece por respirar calma e profundamente, sentindo-se a ir mais dentro de si com cada inspiração. E quando estiver preparado faça a si mesmo estas perguntas:

Qual é a situação no presente que me causa dor?... O que é que sinto quando penso nesta situação?... Quando foi a primeira vez que eu senti estas mesmas emoções?... Quem estava presente?... Quem é que eu continuo a culpar pela minha vida? A quem é que eu dou o meu poder e responsabilizo pela minha vida?

Quando obtiver as respostas regresse novamente ao presente e tome nota das suas descobertas.

Depois escreva pelo menos seis eventos dolorosos do seu passado. Verifique se a pessoa a quem aponta o dedo em cada uma dessas situações é do sexo masculino ou feminino. Descubra depois as lições que se tem recusado a aprender com cada evento. De que maneira é uma pessoa diferente devido a cada um desses eventos?

A guerra que vemos no mundo exterior é sempre e apenas um reflexo da guerra que travamos dentro de nós.

Desejo-lhe um bom trabalho.

sábado, 21 de novembro de 2009

Aquilo a que resiste, persiste

Se tem efectuado todos os exercícios dedicados à descoberta da Sombra, é muito provável que comece a observar alterações significativas nos seus relacionamentos.

Lembre-se de dois aspectos importantes de qualquer relacionamento:

1. O seu Corpo de Dor irá sempre atraí-lo para relacionamentos íntimos com as pessoas capazes de alimentar a dor. Os relacionamentos irão causar-lhe sofrimento, quer queira ou não, para que você possa despertar;

2. A partir do momento que aceita plenamente em si as características negativas da pessoa com quem se relaciona, essa pessoa muda de comportamento ou afasta-se, literalmente, de si.

O processo da Sombra não é fácil nem para qualquer pessoa. Ao iniciar este processo irá mergulhar no que muitos mestres chamam de “Noite Escura da Alma”. A fase inicial deste processo é dolorosa e todo o sofrimento enterrado ao longo dos anos irá surgir para que você o possa abraçar e abençoar, vendo nele os presentes que encerra.

Não pode parar este processo. Não pode simplesmente dizer “já chega, já sofri o suficiente, quero é viver a minha vida!”. Se o fizer, pode ter a certeza que voltará a passar pelo mesmo sofrimento vezes sem conta. Tem que se permitir continuar.

Veja os presentes que cada trauma, cada drama, encerram em si.

Os acontecimentos da nossa infância, por mais traumáticos que tenham sido, encerram o nosso dom. Para lhe facilitar este processo deixo-lhe alguns exemplos.

Qualquer que tenha sido a experiência que o tenha marcado, a lição que aprendeu foi qualquer coisa como:

- Não sou importante;

- Não devo sobressair;

- Não faço nada bem feito;

- Se for eu próprio serei punido;

- Se me respeitar outros irão afastar-se de mim;

- Se não fizer o que é esperado de mim ninguém me amará;

- Os outros têm sempre razão;

- Para ser amado tenho que abdicar daquilo que gosto;

- O meu corpo é feio;

- Sou mau porque não obedeço ás regras da sociedade;

- Se for atrás dos meus sonhos vou ser criticado;

- Não sou merecedor de fazer o que me dá prazer;

- Devo sacrificar os meus sonhos em favor de segurança;

- Não é seguro ser eu mesmo;

- Nunca vou ser completo;

- Se mostrar o que sinto outros irão rir-se de mim e/ou aproveitar-se das minhas fraquezas;

- Se for bem educado todos me respeitarão;

- Só as pessoas sérias é que são levadas a sério;

- Etc, etc, etc.

Estas lições foram apreendidas através de situações específicas em que, regra geral, um dos progenitores participou. Eis o que acontece:

A criança de seis anos, enquanto brinca, parte um vaso de estimação da mãe. A mãe, porque teve um dia ‘pesado’, grita com a criança e diz-lhe qualquer coisa como “Esse era o meu vaso favorito, que a tua bisavó me tinha oferecido! Vai já para o teu quarto de castigo!” (ok, provavelmente aconteceu algo muito pior). Qual a lição que a criança aprende? – pode escolher entre “Nunca faço nada bem feito”, “Sou uma pessoa má”, “Só causo problemas”, “É arriscado divertir-me”...

Se os pais não foram capazes de mostrar carinho, afecto, a lição foi ainda mais dura. Apreendeu coisas como “Não sou digno de ser amado”, “Ninguém gosta verdadeiramente de mim”, “Não sou importante”...

Se os pais discutiam ou não mostravam uma relação amorosa, a lição que apreendeu foi qualquer coisa como “Quando amamos alguém sofremos”, “Para ser amado tenho que abdicar daquilo que gosto”, “Os outros são incapazes de me amar quando sou eu próprio”...

Começa a perceber a história que foi criando enquanto criança? É capaz de ver situações da sua infância e verificar como está agora a viver essas situações de uma outra forma (embora as emoções sentidas sejam as mesmas)?

Todavia, como se isto não bastasse, vamos fazer algo ainda mais absurdo do que o comportamento que os adultos à nossa volta nos mostraram! Vamos mostrar-lhes que não tinham razão, que erraram! E como vamos fazer isso? Repetindo situações em que, inconscientemente, lhes mostramos que o que fizeram estava errado e nós é que temos razão!

Alguns exemplos. Se a lição que o pai ou mãe, através de uma situação específica, mostraram foi algo como “Não sou merecedor de ser amado” então iremos sofrer nos nossos relacionamentos amorosos. Iremos criar relações com pessoas instáveis, ou frias, calculistas, traiçoeiras, falsas. Ou simplesmente não teremos uma relação amorosa com ninguém. Se a lição que nos ensinaram foi “Nunca fazes nada bem feito” iremos criar situações de emprego precário, seremos despedidos com frequência do trabalho, saltaremos de emprego em emprego, teremos dificuldades na escola. Se a lição for “Tu és feio” iremos ter problemas alimentares, um peso muito acima ou abaixo do ideal, problemas de pele ou de saúde, agarrar-nos-emos a vícios que deformem o nosso corpo.

E tudo isto com o único objectivo de podermos apontar o dedo aos progenitores e afirmar “Erraste!”.

O seu desafio, neste momento, é descobrir o presente que cada situação da sua infância encerra – o seu Dom.

De que forma é que os seus pais o ajudaram? Vejamos alguns exemplos.

O Pedro, quando criança, presenciou muitas situações em que os pais discutiam violentamente. Hoje o Pedro é um excelente comunicador e tem ajudado, no seu trabalho, muitos casais a resolver os seus conflitos.

A Mariana, aos sete anos de idade, foi entregue a uma família porque os pais, ambos alcoólicos, eram incapazes de cuidar dela. Hoje a Mariana é directora de recursos humanos numa empresa que prima pela atenção e cuidados prestados aos funcionários.

O pai do João disse-lhe, inúmeras vezes, enquanto criança, que não sabia fazer nada e nunca lhe demonstrou carinho. Hoje o João é um juiz num tribunal de família onde é conhecido pelo afecto com que trata vítimas de maus tratos.

A Gabriela foi violada por um tio até aos nove anos de idade. Andou metida no munda da droga e prostituição. Hoje está à frente de uma organização que cuida de mulheres em situações precárias.

E de que maneira é que a sua história da infância lhe está a ser benéfica? Qual a característica que demonstra devido a uma situação dramática da sua infância? Talvez lhe tenham dito que nunca faria nada bem feito e hoje é um homem de negócios de sucesso. Ou talvez lhe tenham dito que não era digna de ser amada, e hoje, é-lhe fácil sentir compaixão por outros e ser-lhes útil.

Não sei se começa a ver o desenlace da sua sombra. Por um lado irá manifestar-se numa área da sua vida, como a parte de si que não é capaz de aceitar. Por outro lado, irá manifestar-se como o seu oposto numa outra área da sua vida!

E quando for capaz de ver e aceitar ambas, ser-lhe-á fácil descobrir o seu Dom – o motivo divino pelo qual mais ninguém no mundo poderia ocupar o seu lugar.

O exercício desta semana é simples: pegue numa situação dramática da sua vida (ocorrida na infância, adolescência ou juventude). Primeiro veja qual foi a lição ‘negativa’ que apreendeu e que ainda hoje repete, só para ter razão e poder apontar um dedo acusador. Depois veja qual o benefício dessa mesma situação. De que maneira essa situação o tornou mais ou maior.

Para terminar, permita-se descobrir o que precisa de fazer para deixar partir a situação dramática. Qual o ritual de limpeza necessário. Respire fundo durante dois ou três minutos. Vá dentro de si e aguarde a resposta. Pode ser que o que a sua alma necessite é um pedido de desculpa por parte da pessoa que o/a magoou. Pode ser que seja suficiente ir até à praia e gritar a plenos pulmões. Pode ainda ser que precise de acender meia dúzia de velas e dançar com os braços no ar. Não há um ritual certo ou errado – faça o que sentir ser mais apropriado para si.

Agora é a altura de se libertar da sua história.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O ego espiritualizado

Observo à minha volta muita gente com aquilo que chamo de Ego Espiritualizado. Espiritualizam os seus egos. Sei-o porque também já o fiz. Aquelas pessoas que são tão boas, e simpáticas e sempre prontas a ajudar o próximo, e que só querem ser úteis aos demais. E são “oh-tão-dóceis”! Sempre a pensar nos outros! E afirmam que vivem no presente, e que as suas vidas são equilibradas e super saudáveis. E só comem os alimentos mais nutritivos. E não fumam, nem bebem álcool, nem praticam actos sexuais ‘perversos’, nem fogem ás suas responsabilidades, nem procuram ter razão, nem mentem... Estas pessoas são nada mais que um ego monstruoso incapaz de abraçar o lado negro. E, como resultado, irão precisar que outros lhes mostrem o seu lado escuro que não conseguem aceitar.

Nós somos uns seres muito especiais. A vida acontece dentro de nós, e depois projectamo-la para o exterior. Sempre. Tudo o que vê à sua volta é uma projecção do que vai dentro de si. Veja-se o exemplo da Igreja Católica.

Uma instituição que possui uma carga emocional negativíssima sobre a prostituição, o aborto, a homossexualidade, as drogas, o sexo antes do casamento (na verdade tudo o que seja sexual). E o que acontece? Tudo o que nega e repudia é projectado no exterior! Por isso temos prostituição, e temos toxicodependentes, e temos mulheres a abortar, e temos a pedofilia e tudo o mais que esta instituição nega. Em realidade a própria Igreja Católica esconde no seu seio muitos pedófilos.

Isto aplica-se a todas as instituições. Sejam religiosas, politicas, económicas, sociais... Aquilo a que resiste, persiste.

E o mesmo acontece consigo. O que mais odeia nos outros? O que ‘mexe’ consigo? Se é a mentira, pode ter a certeza que irá atrair pessoas mentirosas. Se é o sexo ‘sujo’, irá atrair verdadeiros tarados sexuais. Se é a dependência de drogas, irá atrair pessoas viciadas em qualquer substância.

Tem que se perguntar o que há de errado com mentir. O que há de errado com o sexo ‘perverso’. O que há de errado com a dependência de drogas. Estas são as áreas da sua vida a trabalhar. A única maneira de sair da vida que tem é aceitá-la na totalidade e atravessá-la, sentindo a dor que causa a si mesmo/a e aos que o/a rodeiam.

Porque há-de ter uma reacção emocional quando vê um fumador? Que tipo de pessoa é capaz de fumar? Uma pessoa que não se cuida? E de que forma você não se cuida? Porque há-de ter uma reacção emocional quando vê uma puta? Que tipo de pessoa se prostitui? Uma pessoa que não possui amor-próprio? De que forma é que você não demonstra amor-próprio? Porque há-de ter uma reacção emocional quando ouve falar de pornografia? Que tipo de pessoa gosta de pornografia? Talvez uma pessoa incapaz de lidar com a sua sexualidade ou partilhar a sua intimidade?

Estas são as perguntas que deverá fazer-se sempre que tiver uma reacção emocional perante o comportamento de outro ser humano. Pode ter a certeza de uma coisa: tudo aquilo que nega, tudo aquilo que rejeita, irá aparecer na sua vida vezes sem conta.

Alguma vez pensou porque motivo as pessoas ‘boazinhas’ parecem ter tanto azar? Porque não aceitam que podem ser tudo aquilo que vêem nos outros.

O Caminho da Sombra não é para os fracos. É para os que têm a coragem de expor os seus segredos, as suas raivas, as suas vergonhas. E perdoar-se por tudo o que são e tudo o que não são. É viver a partir do coração e não da mente. É ser quem é sem medo do que os outros vão pensar ou dizer.

Todos nós, sem excepção, guardamos segredos dos quais nos envergonhamos. Segredos que pensamos que iriam afastar os que nos são mais queridos se apenas eles soubessem. E se você neste momento está a pensar “eu não tenho segredos” está na hora de abraçar o seu lado mentiroso.

Este processo é sempre mais fácil para as pessoas com um passado doloroso. Isto porque aquelas pessoas que, aparentemente, tiveram uma infância e adolescência sem grandes problemas, não conseguirão ver tão facilmente a forma como foram abusadas.

Quando tinha 9 anos, ía tomar banho quando um adulto, familiar muito próximo, me mexeu nos genitais e masturbou-me. Até há uns dias não era capaz sequer de reviver o evento. Foi demasiado doloroso e vergonhoso. E perseguiu-me até há bem pouco tempo. Uma parte de mim acreditou que o sexo era sujo, que eu tinha que ser, no fundo, uma pessoa má. Hoje consigo ver o presente daquela experiência. Protegeu-me em mais do que uma situação. Hoje dou graças pela experiência e pela dor causada. Aprendi a ser compassivo e aceitar os que sofrem. Essa experiência ensinou-me a amar os que sofrem.

E agora que você sabe deste meu ‘segredo’... O que vai fazer? Nada que não tivesse feito antes. Se pensava bem de mim, irá sentir uma maior aproximação. Se sentia desprezo por mim, irá sentir-se envergonhado/a quando me vir. Mas eu vou continuar a ser quem sempre fui.

Vivi alguns anos com um familiar que me aterrorizava. De cada vez que esse familiar gritava o meu nome eu mijava-me nas calças (não vale a pena utilizar eufemismos). A vergonha e dor desses anos perseguiu-me até há bem pouco tempo. Aprendi a ter medo de ser eu mesmo. Mas aprendi também uma valiosa lição: não temos o direito de magoar quem quer que seja. E ajudou-me a sentir proximidade e carinho pelos que sofrem abusos.

E agora que sabe isto de mim, o que vai pensar? Que estou a vitimizar-me? Não, estou a dizer-lhe apenas que é ok ser humano.

Quando tinha 15 anos fui sexualmente violado. E durante estes anos todos carreguei comigo a raiva, a vergonha e o desespero. A única pessoa que magoei fui eu mesmo. Todos estes anos a carregar estas emoções altamente tóxicas. E a utilizar estas situações como desculpa para não viver o meu eu mais brilhante e corajoso. Qual é a sua desculpa?

Cada situação do seu passado encerra um presente valioso. Cada situação dolorosa do seu passado encerra a chave para quem você é e o dom que tem para dar ao mundo. Tenha apenas a coragem de enfrentar os seus medos, as suas vergonhas, as suas frustrações. Garanto-lhe que se o fizer será um ser diferente. Irá começar a brilhar. Irá mostrar aos outros que também são um presente divino que têm algo para dar ao mundo.

Posso ainda garantir-lhe que se decidir um dia fazer o Caminho da Sombra irá sentir dores físicas, irá ter dores de estômago, náuseas. Irá passar por emoções que desconhecia. Mas terá que o fazer se quer abraçar o seu lado da Luz.

Cada um de nós tem uma história diferente. Há muitas formas de abusar de uma criança. Muitas formas de dizer “tu não és importante”, “tu mereces ser abandonado”, “tu não prestas”, “tu não podes ter ideias próprias”, “tu deves obedecer sempre”, “Tu não podes sobressair”, “Tu tens que sofrer”... Qual é a sua história? Olhe para a sua vida, para o que está mal na sua vida, e ficará a saber as lições que lhe ensinaram na infância.

Eu tenho uma amiga que aparentemente tem uma vida de sonho. Tudo está bem, a sua infância foi fabulosa. Nada a relatar. Ao ponto de afirmar que vive sempre no presente”. Na verdade não conheço pessoa mais ausente do presente! Ela é falsa (eu também sou), mentirosa (eu também sou), superficial (eu também sou) e fútil (eu também sou). Na verdade ela não tem relações amorosas com o marido há mais de 10 anos, os 3 filhos têm relações frustrantes com ela, um deles é toxicodependente, não fala com a irmã há mais de 5 anos... Esta é a pessoa que jamais aceitará enfrentar o seu lado negro. Por outro lado, é uma pessoa cheia de compaixão (eu também sou), que irradia alegria (eu também irradio), e que tenta sempre ver o lado bom das coisas (eu também o faço).

Faça um favor a si mesmo: esteja preparado para abraçar o seu lado negro. A sua sombra. Nem imagina os presentes que ela tem para si! Enquanto não tiver a coragem de abraçar o seu passado, de fazer as pazes com todos os que o magoaram, de fazer as pazes consigo mesmo, não poderá ser livre. Não poderá mostrar ao mundo quem é de verdade.

Tem que abandonar a sua mente, amar o seu ego, e viver a partir do coração. Não adie este processo.

domingo, 1 de novembro de 2009

Deixa que a tua luz brilhe

O nosso maior medo não é que sejamos insuficientes, ou que não sejamos merecedores. O nosso maior medo é descobrir que temos um poder ilimitado. Estas são palavras de Marianne Williamson, no seu livro “A Return To Love”. É a nossa luz o que nos assusta mais, e não a nossa escuridão. Não há nada de iluminado em encolher-nos ao ponto de que outros não se sintam desconfortáveis à nossa volta. Tu nasceste para manifestar a glória do Universo que está dentro de ti. Não está só dentro de alguns, está dentro de todos. E à medida que deixamos que a nossa luz brilhe permitimos, inconscientemente, que os outros, à nossa volta, brilhem também. Ao mesmo tempo que nos libertamos dos nossos medos, damos autorização aos outros para que façam o mesmo.

Nós vivemos numa época excitante. Está a ocorrer uma oportunidade única de cura. Cura individual, cura da humanidade e cura do planeta. Mas para esta cura ocorrer é imperativo rendermo-nos. Rendermo-nos aos nossos egos e aos velhos padrões comportamentais.

A única coisa que nos impede de sermos completos e autênticos é o medo. O nosso medo diz-nos que não podemos manifestar os nossos sonhos. O nosso medo diz-nos para não corrermos riscos. Impede-nos de desfrutar os nossos maiores tesouros. Na verdade o nosso medo obriga-nos a viver vidas medianas, medíocres, em vez de vivermos todo o espectro de possibilidades disponíveis.

Com medo, criamos situações nas nossas vidas para provarmos a nós mesmos que as nossas limitações, auto-impostas, são apropriadas. Para ultrapassar o nosso medo temos que o enfrentar e substitui-lo com amor.

Nós temos medo da nossa magnificência porque ela desafia todas as nossas crenças. Contradiz tudo aquilo que nos foi ensinado.

Um dos passos mais importantes que deve começar já hoje é reconhecer todo o bem que já faz. Todos os dias, todas as coisas boas que faz.

Compre um boneco chorão e sempre que der por si a criticar-se, a deitar-se abaixo, pegue no chorão e bata-lhe com toda a força! Atire-o contra a parede! E saiba que é isso que está a fazer à criança dentro de si de cada vez que se criticar.

Não só é correcto dizermos coisas boas sobre nós, é imperativo. Temos uma obrigação de reconhecer os nossos dons e os nossos talentos. Aprender a reconhecer os nossos talentos permite-nos apreciar e amar os dons e os talentos dos outros.

Pare agora e acalme a sua mente. Respire fundo meia dúzia de vezes. Depois leia a lista que lhe apresento abaixo. Depois de ler cada palavra diga a si mesmo: “Eu sou...” para cada uma. Por exemplo: “Eu sou brilhante”, “Eu sou saudável”, “Eu sou talentoso.” Inclua ainda palavras que representem pessoas que admira mas que não consegue imitar.

Satisfeito, seguro, amado, inspirador, sensual, radiante, delicioso, apaixonado, alegre, feliz, sexy, capaz de perdoar, cheio de vida, realizado, energético, confiante, flexível, capaz de aceitar, completo, saudável, talentoso, capaz, sábio, honrado, sagrado, poderoso, capaz de abraçar tudo, divino, poderoso, livre, engraçado, afluente, iluminado, equilibrado, brilhante, um sucesso, merecedor, aberto, compassivo, forte, criativo, pacífico, justo, famoso, disciplinado, responsável, bonito, desejável, entusiasta, corajoso, precioso, afortunado, maduro, artístico, vulnerável, consciente, capaz de ter fé em mim, magnificente, atractivo, centrado, romântico, um coração amoroso, sortudo, agradecido, gentil, sossegado, querido, extravagante, decidido, terno, irresistível, generoso, belo, calmo, despreocupado, paciente, leal, espiritual, ligado aos outros, espontâneo, organizado, bem humorado, contente, adorado, brincalhão, limpo, pontual, divertido, compreensível, dedicado, activo, glamoroso, destemido, vivaço, caloroso, focado, inovador, super-estrela, magnifico, um líder, sólido, campeão, rico, simples, genuíno, sensível.

Você possui todas estas qualidades. Tudo o que tem a fazer para trazer estas qualidades para a luz é abraçar cada uma, senti-la como sua pertença. Se conseguir ver onde, na sua vida, já expressou determinada qualidade, ou em que situações poderia expressar essa qualidade, pode abraçá-la agora. Tem que estar disponível para afirmar “Eu sou isso!”.

O passo seguinte é ver o presente nessa qualidade. Ao contrário da sombra escura, é fácil e óbvio ver de que maneira esta qualidade lhe pode ser útil.

Mas muitos de nós precisamos de enfrentar o nosso medo e a nossa resistência. Muitos de nós desenvolvemos mecanismos de defesa bastante sofisticados para reforçar as nossas crenças que nos dizem que não somos tão talentosos ou tão criativos como qualquer outra pessoa que escolhemos como comparação.

Se não for capaz de abraçar determinada qualidade é muito pouco provável que consiga manifestar algo nessa área. Se tem um problema de peso e não for capaz de abraçar o eu magrinho dentro de si, é muito pouco provável que consiga obter o peso ideal.

Não importa como se sente, quando estiver a afirmar as qualidades, não fuja. Ao dedicar-se ao processo de resgatar as partes de si que escondeu estes anos todos, está a dizer ao Universo que está preparado para ser completo.

Nós somos ensinados que é errado reconhecer a nossa grandeza. A maioria de nós acredita que possui algumas das qualidades positivas, mas nunca todas. Mas nós somos tudo. Todas as coisas que nos fazem sorrir, e todas as coisas que nos fazem chorar. Nós somos tudo o que é belo e tudo o que é feio num só ser.

Quando conseguir abraçar toda a lista de qualidades, deparará consigo diante dos olhos de Deus. Quando aceitamos em nós todas as nossas projecções positivas iremos experienciar a paz interior – aquela paz que nos diz que somos perfeitos tal como somos. A paz chega a nós quando paramos de fazer de conta que somos quem não somos. Muitos de nós nem nos apercebemos que estamos a fazer de conta que somos menos do que somos de verdade. Convencemo-nos que quem somos é suficiente.

Permita que o mundo dentro de si se manifeste, e irá ver o caminho para a liberdade plena – a liberdade de ser sexy, de ser desejável, de ser talentoso, de ser saudável, de ser um sucesso!

Quando é incapaz de reconhecer todo o seu potencial não permite que o Universo lhe entregue todos os seus presentes. A sua alma anseia a manifestação plena do seu potencial. E só você pode permitir que isto aconteça. Pode escolher abrir o seu coração e abraçar a totalidade de quem é, ou pode escolher viver a sua vida na ilusão de ser quem pensa que é hoje. O perdão é o passo mais importante neste percurso de amor próprio.

Temos que nos permitir ver-nos com a inocência de uma criança, e aceitar as nossas falhas com amor e compaixão. Temos que por de parte os nossos juízos e castigos e aceitar os erros que cometemos. Temos que sentir que somos merecedores de perdão.

Este presente divino, de nos perdoarmos, ensina-nos que uma parte de ser humano é cometer erros. E o perdão vem do coração e nunca do ego. O perdão é uma escolha. Em qualquer altura podemos deixar partir os nossos ressentimentos e as nossas criticas e optar por perdoarmo-nos e perdoar os outros.

O amor que não inclui a totalidade de quem você é, é um amor incompleto. Muitos de nós somos treinados para procurar o amor que precisamos fora de nós. Mas quando deixamos partir a nossa necessidade de amor no mundo exterior, a única forma de encontrar algum conforto é indo dentro de nós, procurar aquilo que ansiamos tanto que venha de fora. Temos que permitir que o Universo dentro de nós, o nosso pai e a nossa mãe divinos, nos amem e nutram.

Procure dentro de si a raiva que ainda esconde. A raiva só é uma emoção negativa quando é suprimida ou trabalhada de uma maneira pouco saudável. Quando sente compaixão por si mesmo permite-se que todos os aspectos de si, o seu amor e a sua raiva, coexistam dentro de si. Sempre que eu me julgar ou julgar outros, eu sei que estou a agarrar-me a interpretações negativas de um evento qualquer.

Pode custar-lhe a aceitar isto, mas a sua raiva é a chave que abre o seu coração. Quando accionada liberta toda a energia vital que irá fluir por todo o seu ser.

Tem que saber ainda que a cura que procura para os seus relacionamentos não virá nunca dos outros. Tem que vir de si primeiro. Tem que vir da comunhão com todas as qualidades e todos os defeitos que vivem dentro de si.

Está na altura de libertar a paixão por quem é e encontrar o amor por quem é na totalidade. É este o seu objectivo último nesta realidade física e limitada.

Como dar amor a si mesmo... Já reparou como um bebé sorri? Os bebés são excelentes demonstrações do que é viver cada emoção. Podem chorar com um desespero ensurdecedor e um minuto depois rir como se fossem reis do mundo! Quando olhamos para os olhos de um bebé que sorri sentimos o nosso coração pleno, e sorrimos de volta. Porque na verdade esse bebé sorri para nós sem juízos de valor, sem criticas nem comparações. Isto é o amor incondicional. Também temos a experiência do amor incondicional com animais. Mas raramente temos essa experiência com outros adultos.

Os bebés projectam-nos a nossa inocência e o nosso amor incondicional. E o que é que nós projectamos de volta? Pensamos na sua beleza, inocência, perfeição, doçura? Ou pensamos que são egoístas, mimados, descontrolados, monstrinhos?... Quaisquer que sejam os nossos pensamentos, iremos projectá-los nos bebés. Lembre-se que são sempre aspectos de quem você é que projecta sobre os outros.

Imagine-se agora a si como um bebé inocente que se sente merecedor de todo o amor que a vida tem para dar. Sinta esse bebé dentro de si. Permita que esse bebé receba todo o amor. Imagine-se todos os dias a dar amor a esse bebé. Feche os olhos e permita que uma imagem de si, quando era bebé, venha até à sua mente. Pergunte-se: “O que posso fazer por este bebé hoje? Como é que posso fazer com que se sinta amado e acarinhado?” Ouça a sua voz interior.

Nós andamos tão ocupados a andar ocupados que nos esquecemos frequentemente de como dar-nos carinho. O início do dia é um momento sagrado para nos ligarmos ao nosso divino, ao nosso bebé interior. À medida que despertamos vamos tomando consciência dos pensamentos e dos sentimentos que irão ditar como será o nosso dia. Em vez de correr e fazer tudo de maneira automática, pare. Dê-se a si mesmo uma massagem antes do duche. Sorria ao bebé dentro de si. Diga-lhe que está tudo bem. Agradeça ao seu corpo por estar presente, por guardar a sua alma, por ser o alicerce de quem você é nesta realidade.

O importante é honrar-se. Dar a si mesmo a mensagem que é importante. Honre e respeite o génio brilhante que há em si. Quando o fizer será capaz de o fazer também aos outros. irá assim atrair pessoas idênticas a si. Situações idênticas a quem se sente por dentro.

Faça a si mesmo aquilo que gostaria que outros lhe fizessem. Se gosta de flores, compre para si um ramo de flores. Se gosta de música, comece o dia com música. Cante! Trate-se como se fosse realeza!

O mundo dá-lhe de volta aquilo que está já dentro de si. Se se amar, nutrir e apreciar interiormente, o mundo exterior irá mostrar-lhe exactamente o mesmo.

Se quer mais amor, ame-se mais. Se quer mais aceitação, aceite-se mais. Se se amar e respeitar a partir do mais profundo do seu ser, irá atrair a si o mesmo nível de amor e respeito.

Exercício

O objectivo deste exercício é identificar e libertar a energia emocional tóxica. O foco da sua atenção é o perdão. O seu objectivo é libertar qualquer emoção que esteja bloqueada – raiva, ressentimento, arrependimento, ou culpa. Os sentimentos que o impedem de se perdoar e perdoar outros.

Escrever um diário é uma maneira muito saudável de processar as suas emoções. Encoraja o que vai na sua mente a fluir para o papel. Permite que a toxicidade emocional do corpo e da mente se expressem livremente. Uma vez que permitamos que esta toxicidade exista sem qualquer juízo de valor ela é libertada.

Escolha um momento do dia em que não seja interrompido. Desligue os telemóveis. Pode optar por ter uma música de fundo suave, umas velas acesas, um incenso a arder. Crie o ambiente ideal para si.

Com os olhos fechados, imagine-se dentro de um elevador e carregue no botão que o levará até ao quinto andar. Quando a porta se abre dá por si num maravilhoso jardim. Enquanto olha para as flores, as árvores frondosas, e tudo o que um jardim maravilhoso possa conter, dá-se conta de uma cadeira num lugar perfeito para você descansar e relaxar. Vá até essa cadeira, sente-se, respire fundo. Depois pergunte-se a si mesmo as questões a seguir e permita que as respostas fluam até si. Depois de cada resposta, abra os olhos, escreva no seu diário e regresse ao mesmo lugar.

1. Que história criei eu sobre quem sou de verdade e que explica as circunstâncias da minha vida actual?

2. Que ressentimentos, velhas feridas, raivas, ou arrependimentos transporto ainda no meu coração?

3. Quem é a pessoa na minha vida que eu ainda não quis perdoar?

4. O que tem que acontecer para que eu me perdoe e perdoe os outros?

Faça depois uma lista das pessoas que tem que perdoar e escreva-lhes uma pequena carta. Se a sua lista for muito grande, escreva cartas a todas as pessoas nessa lista. Aquilo que não terminar agora, nunca poderá dar por completo mais tarde!

O que precisa de dizer a si mesmo para estar em sintonia com a sua vida neste momento? Diga-o mil vezes ao dia! (E escreva-o no seu diário!)

Escreva uma carta de perdão a si mesmo. Faça uma lista das três pessoas que mais admira. Escreva depois três qualidades que admira nelas. Faça depois uma lista geral com as nove qualidades. Verifique novamente a lista de qualidades que encontrou no início desta newsletter e anote aquelas que não consegue identificar em si. Adicione estas qualidades ás nove iniciais.

Pegue agora nesta lista e sente-se em frente a um espelho. Olhe-se nos olhos e afirme “Eu sou...” Repita a afirmação até deixar de sentir qualquer resistência interior. Escolha abraçar uma ou duas qualidades por dia. Se ficar preso a uma qualidade, e incapaz de a aceitar, passe à qualidade seguinte e regresse a essa mais tarde.

Desejo-lhe bons encontros com a sua Sombra de Luz.

Emídio Carvalho

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Reinterpretar o Eu

Se deixarmos o passado sem o curar, ele irá destruir as nossas vidas. O passado esconde o nosso dom, a nossa criatividade e os nossos talentos.

Fomos ensinados que é difícil ir atrás dos nossos sonhos. E não nos disseram que é ainda mais difícil viver cada dia sabendo que não estamos a viver os nossos sonhos.

Se não tivermos a coragem de fazer as pazes com o nosso passado, iremos sempre transportar ás costas a raiva, o ressentimento, a culpa, a impotência, a vergonha e o medo.

O poder para fazer as pazes com o passado está já dentro de si, mas só irá surgir quando você estiver preparado e desejoso de fazer as mudanças na sua vida. Quando o desejo de mudar for mais forte que o desejo de querer manter tudo como está. Claro que é sempre mais fácil culpar os outros pela situação que estamos a viver agora, neste momento.

Tem que estar preparado para abraçar o passado se quiser fazer verdadeiras mudanças no seu presente. O nosso passado é o que dá forma ao que vemos, ao que dizemos e à maneira como vivemos.

Saiba que os preconceitos são passados de geração em geração, de maneiras muitas vezes subtis. A dor também é passada de geração em geração. O medo, a vergonha, a culpa, a impotência, também são passados de geração em geração. Não sei se já tinha mencionado: o medo é passado de geração em geração. Os seus problemas actuais são seus, ou herdou-os?

Muitas pessoas decidiram já que não seriam como os seus pais! Mas temos que ter sempre presente que passamos os anos mais importantes da nossa aprendizagem a absorver os conhecimentos e comportamentos dos nossos pais. Todas as suas qualidades e defeitos.

Saiba que todos os eventos negativos da sua vida são na verdade bênçãos disfarçadas de problemas. A dor tem um propósito. Ensina-nos e guia-nos a níveis mais elevados de consciência.

Há um ditado chinês que diz “O mundo é um mestre para o homem Sábio, e um inimigo para o louco”. Nenhum evento é doloroso em si. É tudo uma questão de perspectiva. É importante saber que tudo o que acontece no mundo acontece porque tem que acontecer, e é perfeito na forma como acontece. Não há erros. Não há acidentes. O mundo é um paraíso e um inferno. Qual a sua perspectiva?

Não há ninguém neste mundo que diga o que eu digo da maneira que o digo. Ninguém neste mundo faz as coisas que eu faço na forma exacta em que as faço. Eu sou eu e tu és tu. Cada um de nós é único e cada um de nós tem um caminho especial a percorrer.

Por forma a ganhar sabedoria e liberdade do seu passado, tem que aceitar total responsabilidade por todos os eventos que ocorreram na sua vida. Aceitar a responsabilidade significa afirmar: “Fui eu quem fez aquilo.” Há uma grande diferença entre o mundo fazer-lhe coisas a si e você fazer coisas a si mesmo. Quando aceita a responsabilidade pelos eventos na sua vida, e pela sua interpretação desses eventos, sai do mundo da criança e entra no mundo do adulto. Ao aceitar a responsabilidade pelas suas acções e inacções , você desiste da sua história pessoal (que é sempre qualquer coisa à volta de “Porquê eu?”) e transforma-a em “Isto aconteceu-me porque eu precisava de aprender uma lição. Isto faz parte da minha caminhada”.

De acordo com Nietzsche, desejar que o nosso passado não tivesse acontecido é desejar que nós não tivéssemos acontecido. É praticamente impossível mudar de direcção na nossa vida sem antes fazer as pazes com o passado. Cada evento significativo da nossa vida muda a forma como interpretamos a própria vida, e a perspectiva que temos dela.

A ideia de revisitar o passado pode parecer aterradora, mas é uma parte essencial do processo. O nosso passado é uma bênção que nos pode guiar e ensinar, e transporta consigo tantas mensagens negativas como positivas.

A nossa dor pode ser o nosso melhor mestre. Irá levar-nos a lugares que nunca teríamos a coragem de ir de outra maneira. Quantas pessoas estariam dispostas a sofrer durante 20 ou 40 anos só para descobrir a vontade da sua alma?

Aceitar a responsabilidade total pelo nosso passado é uma tarefa avassaladora. A maioria de nós está preparada para aceitar responsabilidade pelas coisas boas que nos aconteceram, mas resistimos aceitar a responsabilidade pelas coisas más que foram sucedendo. Mas quando aceitamos a responsabilidade total por todos os eventos, tornamo-nos mais fortes com cada evento ocorrido. Mesmo que nos sintamos envergonhados ou magoados por qualquer evento, podemos encontrar paz no saber que de alguma forma o evento está a ajudar-nos a descobrir o nosso dom. Tornamo-nos responsáveis por tudo o que acontece. Dizemos ao Universo: “Eu sou a fonte da minha própria realidade!” Este é o lugar de poder a partir do qual pode alterar a sua vida.

Enquanto não for capaz de olhar o seu passado olhos nos olhos, ele estará sempre por perto, trazendo-lhe mais experiências em tudo iguais ás do passado. Mas tudo o que precisa é de uma mudança na sua perspectiva.

Para alterar a nossa percepção precisamos de encontrar cada momento do nosso passado até encontrar uma interpretação poderosa que nos permita aceitar a responsabilidade. Não faz ideia da energia que gasta para provar a si mesmo que tem razão e que não foi ‘culpa’ sua! É claro que é sempre mais fácil culpabilizar os outros pelas coisas que não gostamos no nosso mundo. Mas esse caminho leva-nos sempre a um único local: nenhures!

Há sempre dor quando somos vítimas das circunstâncias: a dor do desespero e do desalento. Mas você vive num universo onde tudo acontece por um motivo. Procure a bênção em todos os eventos da sua vida e irá dar por si no caminho da gratidão. Irá ter a experiência do que é ser-se abençoado.

Cada palavra, incidente e pessoa em relação à qual ainda sente existir uma carga emocional tem que ser estudada, olhada na cara, reconstruída, re-perspectivada e abraçada. Temos que caminhar até à origem da nossa dor. E tomamos as rédeas da nossa vida ao escolhermos as nossas interpretações.

Ao inventarmos uma nova interpretação estamos a utilizar a forma mais simples de transformar uma experiência negativa em outra, positiva. Tudo o que acontece no nosso mundo é objectivo. Não possui um significado inerente. Mas cada um de nós vê o mundo com um olhar diferente, sendo que cada um irá atribuir um significado diferente a dado evento. É a nossa percepção e interpretação que afecta as nossas emoções, e não o incidente em si. É a nossa percepção e interpretação quem nega a nossa responsabilidade e atribui as culpas.

Cada um de nós tem que tomar uma decisão consciente de alterar o nosso mundo, alterando as nossas percepções. Mude a percepção, a interpretação, de uma palavra ‘má’ apenas, e irá descobrir que não só a palavra perde a sua carga emocional, como esta carga lhe é devolvida com poder.

Vou deixar-lhe um exercício simples para integrar este conceito. Irei pegar numa palavra que, para mim, ainda tem alguma carga emocional. Uma palavra que ainda hoje eu não suporto que me chamem: coitadinho. Eu recuo no tempo para descobrir um incidente na minha vida que me causou dor e ajudou a interpretar ‘coitadinho’ como algo mau. Chego a um ponto, quando tinha uns dez anos, em que a minha mãe falava com amigas sobre mim e depois de enunciar todas as ‘asneiras’ que eu tinha cometido terminou com um “coitadinho, se eu e o pai morremos não sei o que será dele!”. Isto causou em mim sentimentos de impotência, raiva e vergonha. A minha interpretação foi a de que a minha mãe não gostava verdadeiramente de mim, e os coitadinhos só fazem asneiras e vivem ás custas dos outros. Então eu tenho que me permitir experienciar novamente as emoções negativas do evento. E só depois começo a criar uma nova interpretação da palavra “coitadinho”

A interpretação negativa:

1. A minha mãe odiava-me e estava sempre a deitar-me abaixo;

2. A minha mãe pensava que eu era inútil e parasita.

A nova interpretação:

1. Eu sou poderoso, o que deixava a minha mãe nervosa. A única forma que ela tinha de lidar com este nervosismo era chamar-me nomes que considerava apropriados;

2. A minha mãe pensava que chamar-me “coitadinho” era uma forma de mostrar-me afecto;

3. A minha mãe gostava tanto de mim que me queria preparar para o mundo duro e cruel que ela imaginava, tentando assim impedir que eu caísse na preguiça.

A questão que se deve colocar é: esta nova interpretação dá-me poder ou retira-me poder? Esta nova interpretação deixa-me mais forte ou mais fraco? Se a vozinha dentro da sua cabeça segue um dialogo que lhe rouba poder, não irá mudar nada enquanto a vozinha não se transformar numa que lhe dá poder, segurança interior e um pensamento optimista.

É por este motivo que é tão importante escrever tudo e olhar para os eventos sob tantos ângulos quantos lhe for possível. Só o simples acto de escrever as coisas obriga a que as palavras e os incidentes comecem a perder uma parte do domínio que detêm sobre si.

É sempre uma responsabilidade sua escolher interpretações poderosas. Quanto mais consciente estiver dos presentes da vida, mais depressa irá escolher uma perspectiva positiva sobre os eventos da sua vida. Quando nega um aspecto que seja de si, está a negar uma parte que o impedirá de ser completo. E todos nós, sem o esforço necessário, iremos sentir a falta da coragem para admitir que estamos errados, que somos inteiramente responsáveis.

E por outro lado, temos receio que o nosso brilho, o nosso poder, nos isole da sociedade. Porque a sociedade que vemos à nossa volta é medíocre a todos os níveis.

A compaixão por nós mesmos é essencial neste processo. Se a compaixão estiver ausente iremos sentir medo e ódio. E uma vez que é infinitamente doloroso sentirmos medo e ódio por nós mesmos, iremos projectar esse medo e ódio no mundo à nossa volta. É-nos mais fácil ser vítimas do mundo do que vítimas de nós mesmos. E ao culpar o mundo evitamos a dor de nos vermos tal como somos.

Quando abraçamos um aspecto negativo do nosso ser, regra geral, o seu oposto surge espontaneamente. Ao abraçar o aspecto ‘medricas’ trazemos à superfície o ‘corajoso’. Temos que abraçar o nosso lado negro na totalidade para podermos abraçar a luz.

Quando nos abrimos à possibilidade de abraçar, a partir do coração, tudo o que existe, e começarmos a olhar para aquilo que está bem, em vez daquilo que está mal, iremos ver Deus.

E se tu conseguires ver o teu dom no final da caminhada, isso significa que eu conseguirei ver o meu. Porque tu és eu e eu sou tu neste mundo que é espírito momentaneamente a passar por uma experiência como matéria.

Exercício

Lembra-se dos exercícios em que entrava num elevador para poder encontrar o seu eu superior e o ego? Volte a entrar nesse elevador, criando antes um ambiente calmo, tranquilo, em que não será perturbado.

Respire fundo cinco vezes. Imagine-se a entrar no seu elevador interior e descer 7 pisos. Quando as portas se abrirem estará no seu jardim sagrado. Caminhe até ao lugar onde medita. Desfrute um pouco da beleza à sua volta. Depois pergunte-se a si mesmo esta questão: Que crenças de fundo orientam a minha vida? Aguarde uns minutos e depois faça uma lista.

Depois volte a cerrar os olhos e imagine a primeira crença da sua lista. Faça a si mesmo as seguintes questões (leve o seu tempo para ouvir as respostas que virão do seu mais íntimo):

1. Esta ideia é mesmo minha, ou adoptei-a de outra pessoa?

2. Porque motivo tenho esta crença?

3. Esta crença dá-me poder?

4. Do que teria que desistir se alterasse esta crença?

Depois anote as respostas no seu caderno especial.

Desejo-lhe uma aventura maravilhosa.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

A construção de uma personalidade oculta

Cada um de nós possui uma herança psicológica que não é menos importante que a nossa herança biológica. Esta herança inclui um legado sombrio que nos é transmitido através do ambiente cultural da nossa família. Somos, inicialmente, expostos aos valores, temperamentos, hábitos e comportamentos dos nossos pais e irmãos. Com bastante frequência, os problemas que os nossos pais foram incapazes de resolver por eles próprios vêm até nós sob a forma de padrões de adaptação disfuncionais.

A nossa família é o teatro onde nós actuamos com a nossa individualidade e os nossos desejos. É o nosso centro gravitacional emocional, o lugar onde começamos a adquirir e a desenvolver o nosso carácter, sob as influências das personalidades variadas que nos rodeiam (pai, mãe, irmã, tio...).

Na atmosfera psicológica criada pelos nossos pais e irmãos, educadores de infância e todas as outras fontes importantes de amor e aprovação, cada um de nós, crianças, dá início ao processo necessário do desenvolvimento do ego. A adaptação do ser humano à sociedade exige a criação de um ego – um “eu” - que sirva como princípio da nossa consciência em crescimento. Este desenvolvimento do ego depende em grande parte da repressão daquilo que consideramos ‘mau’ ou ‘errado’ em nós, enquanto tentamos identificarmo-nos com aquilo que é ‘bom’. Isto dá à personalidade em desenvolvimento uma vantagem estratégica na eliminação de qualquer ansiedade e, em simultâneo, ganhar tantos aspectos positivos quanto seja possível. O processo de desenvolvimento do ego continua até por volta dos quarenta anos de idade, sendo modificado de acordo com experiências e influências externas, à medida que interagimos com o mundo.

Mas à medida que o nosso ego cresce e se mostra ao mundo, a nossa sombra, os aspectos que escondemos para agradar aos outros, também cresce e desaparece nos recantos do nosso subconsciente. O “Eu Deserdado” é um produto resultante do processo de desenvolvimento do ego. Eventualmente este “eu deserdado” torna-se a imagem do ego reflectida no espelho. Nós deserdamos tudo aquilo que não se conforma com a nossa imagem de quem somos, criando assim uma sombra. E devido à necessidade do ego de criar um aspecto único de si (ou é bondade ou maldade, bonito ou feio, egoísta ou altruísta), todas as qualidades que são rejeitadas, negligenciadas e inaceitáveis em nós acumulam-se inconscientemente na nossa mente e tomam a forma de uma personalidade inferior – a sombra.

Contudo, aquilo que deserdamos não desaparece. Vive plenamente dentro de nós – longe da nossa consciência e da nossa razão – tão real como a nossa certeza de sermos um individuo. Um outro ego (alter ego) que se esconde imediatamente abaixo da nossa consciência. Com regularidade este aspecto rejeitado imerge como a lava de um vulcão que explode depois de milhares de anos sob pressão, normalmente quando nos encontramos distraídos, ou sob uma enorme pressão emocional. “Não sei onde tinha a cabeça!” dizemos nós. Ou “não fui eu! Jamais faria isso!” ou a mais tradicional “O diabo em figura de gente!”. Isto são os eufemismos utilizados pelos adultos para explicar o comportamento do alter ego, ou “outro eu”.

Assim, o ego e a sombra encontram-se num antagonismo perpétuo e que é a base de toda a mitologia: a relação entre dois irmãos, o bom e o mau. Representações simbólicas do ego e do alter ego. Se pegarmos nestes irmãos, no representante da bondade e da maldade, e os juntarmos teremos um todo completo. Da mesma maneira, quando o ego abraça a sua sombra nós conseguimos o sentimento de plenitude, a totalidade que sempre fomos.

Nos primeiros anos de vida, todos nós estamos isentos da capacidade de filtragem consciente. Assim, a nossa aprendizagem, em termos de comportamento social, é muitas vezes ambígua e muito solta. Podemos observar a criação da sombra num infantário, enquanto as crianças brincam, e a forma como esta sombra é reforçada pelos adultos à volta. Ninguém consegue ficar indiferente à maldade e crueldade que uma criança é capaz de manifestar enquanto brinca. Quando sentimos a necessidade de intervir fazêmo-lo muitas vezes de maneira espontânea. Naturalmente, instintivamente, não queremos que as crianças se magoem. Mas também queremos que a criança “deserde” as acções e sentimentos que nós próprios deserdamos, por forma a que a criança se insira no ideal adulto da brincadeira mais apropriada. Como se isto não bastasse, projectamos na criança que “se porta mal” aquilo que rejeitámos previamente em nós mesmos. Se a criança obedecer, irá ela própria deixar de se identificar com estes impulsos “negativos” para agradar ao adulto e obter aprovação.

As sombras dos outros estimulam um esforço moral continuado na criança à medida que vai desenvolvendo o seu ego e a sua sombra. Aprendemos, enquanto crianças, a esconder tudo o que sucede um pouco mais abaixo da nossa consciência. Isto para que os adultos nos vejam como “bons” e para que sejamos aceites com afecto pelos adultos à nossa volta.

A projecção – a transposição involuntária de tendências inconscientes inaceitáveis para objectos, animais e pessoas – funciona como uma ajuda ao ego frágil em desenvolvimento, na sua busca incessante de aprovação.

Ninguém gosta de admitir possuir um lado escuro. As pessoas que acreditam que o seu ego representa a totalidade de quem são, e que desconhecem ou não querem conhecer a totalidade de quem são na verdade, irão projectar as partes rejeitadas no mundo à sua volta.

Mas o oposto também pode acontecer. Quando a criança se apercebe que nunca poderá atingir as expectativas dos adultos à sua volta, poderá dar início a comportamentos inaceitáveis e tornar-se no bode expiatório para as projecções das sombras dos adultos à sua volta. A ovelha negra de qualquer família é o responsável, inconsciente, de transportar a sombra da própria família. Poucas famílias conseguiriam funcionar sem uma ovelha negra.

Sylvia Brinton Perera, no seu livro “The Scapegoat Complex”, afirma que o adulto identificado como a ovelha negra é, normalmente, por natureza um indivíduo sensível a estados emocionais inconscientes. Ou seja, a criança mais sensível é, regra geral, a que mais tarde irá carregar a sombra da família.

O próprio Jung deixa um exemplo claro desta projecção e de como pode afectar qualquer família. Conta a história de um homem muito religioso o qual nunca tinha pecado ou feito mal a quem quer que fosse na sua vida. Era um homem extremamente honesto e sentia repudia por qualquer acto moralmente incorrecto. Com um pai assim é fácil compreender que o seu filho se tornasse um ladrão e a filha uma prostituta (o motivo que levou o homem a procurar a ajuda de Jung). Uma vez que o pai se recusava a abraçar a sua própria sombra, a sua parte na imperfeição humana, os seus filhos eram compelidos a vivenciar o seu lado escuro ignorado.

Para além dos padrões existentes nas relações pais-filhos, há outros eventos que adicionam complexidade ao processo da construção da sombra. À medida que o ego da criança se torna mais consciente, uma parte de si cria uma máscara – ou persona – que é a face que mostramos ao mundo, a qual representa aquilo que a criança quer que os outros pensem que é. Esta persona vai de encontro ás exigências pedidas pelo ambiente e cultura que rodeiam a criança. Assim, o ideal de ego vai de encontro ás expectativas e valores do mundo onde a criança cresce. Mas por detrás deste ego, a sombra faz o seu trabalho de contenção.

Todo o processo de desenvolvimento de ego e persona é uma resposta natural ao nosso meio ambiente e é influenciado pela comunicação com a nossa família, professores e religiosos, através da sua aprovação ou reprovação, aceitação e vergonha.

As sombras dos membros da família têm uma influência muito forte no desenvolvimento do “Eu Deserdado” da criança. Isto é ainda mais verdade quando os elementos sombrios não são reconhecidos pelos respectivos membros da família, ou quando estes colidem na tentativa de esconder a sombra de um membro da família que seja mais fraco, ou mais forte, ou mais amado.

Este é um dos principais motivos porque no meu seminário dedicado ao processo da sombra ensino os participantes a pedir o amor que precisam. A forma como isto é feito, na prática, tem sempre um efeito poderoso e potenciador, capaz de despertar a sombra que receamos encontrar.

Um dos maiores perigos, quando a criança começa a desenvolver a sua sombra, encontra-se nas famílias disfuncionais, negativas, abusivas, ou, inversamente, certinhas, correctas, convencionais, preconceituosas. Em ambos os casos as famílias irão alimentar uma sombra carregada de vergonha, medo e culpa.

A construção da sombra é inevitável e universal. Ela torna-nos quem somos e pode levar-nos ao trabalho da sombra, obrigando-nos a abraçar a totalidade de quem somos e, assim, a libertar-nos. Ao trabalharmos a nossa sombra temos uma possibilidade real de sermos a totalidade que sempre fomos.