terça-feira, 2 de março de 2010

O Caranguejo Louco - Uma Parábola

Numa praia protegida por rochas que impediam as ondas do mar de se abater com a sua violência sobre a areia vivia uma colónia de caranguejos.

Estes caranguejos eram bastante pequenos, atingindo na idade adulta não mais que uns 3 centímetros de envergadura.

Todos os anos, durante os meses de Verão, os caranguejos perdiam a sua carapaça, expondo-se aos predadores e sendo presas fáceis para outros bichos do mar, da terra e do ar. Nesta fase do seu crescimento protegiam-se dos perigos da vida permanecendo em buracos nas rochas. Não se alimentavam enquanto aguardavam o crescimento de uma nova carapaça.

Um destes caranguejos, ainda um jovem, perguntava aos mais velhos porque motivo não iam para lá das rochas. Porque não se aventuravam no mar... Os mais velhos contavam-lhe histórias aterradoras. Histórias de gaivotas esfomeadas, de polvos devoradores, de pescadores furtivos. Não era seguro ir para lá das rochas. Toda a vida tinham feito o mesmo: escondiam-se nos buracos das rochas enquanto uma nova carapaça não crescia. Era assim que se fazia, e era assim que podiam crescer.

O pequeno caranguejo perguntava-se porque motivo não cresciam mais, uma vez que todos os anos mudavam de carapaça. Se mudavam de carapaça para crescer, porque não cresciam?

Um dia, em que este pequeno caranguejo se encontrava sem carapaça, decidiu partir à aventura. Indo contra todos os conselhos e advertências dos mais velhos, e sem a protecção da sua carapaça, optou por avançar para lá das rochas protectoras.

E ainda que sentisse medo e alguma ansiedade, o seu desejo de descobrir mais do mundo à sua volta empurrou-o para lá das rochas. Enquanto seguia o seu caminho conseguia ouvir todos os outros caranguejos a chamar por ele. A gritar-lhe e a dizer-lhe que não sobreviveria. Pediam-lhe que voltasse atrás. Chamavam-lhe louco e desnaturado!

Mas o pequeno caranguejo não deu ouvidos. As histórias dos outros caranguejos não o convenciam. A verdade é que mesmo na segurança da praia, um dia iria também morrer. Mesmo na segurança da praia ele assistira a familiares seus serem devorados por gaivotas. E preferia morrer enquanto se aventurava por novas paisagens.

A principio foi-lhe difícil atravessar a barreira protectora feita de rochas. As ondas batiam nelas e empurravam-no de volta ao refúgio natural dos seus familiares. E o pequeno caranguejo lutava contra estas ondas. Apesar de parecer que não saía do mesmo lugar, aos poucos avançava mais uns centímetros.

Enquanto lutava contra a força das ondas o seu corpo mole, sem carapaça, foi-se tornando mais maleável, mais elástico. Sem se aperceber, de cada vez que lutava para vencer uma onda o seu corpo parecia crescer mais um pouco. E de cada vez que uma onda o atirava contra uma rocha, ficava com a sensação de que o seu corpo mole se tornava mais rijo.

E o pequeno caranguejo, sem nunca desistir da sua aventura, continuou a lutar contra as ondas. Demorou alguns dias até conseguir avançar para lá da protecção das rochas.

Quando finalmente ultrapassou a barreira de rochas ficou de boca aberta! O mar era vasto e cheio de cores! Muitos peixes, de muitos tamanhos e cores! Plantas que nunca sonhara poderem existir! E tudo parecia estar ali para lhe dar as boas-vindas!

Foi então que deu de caras com um enorme caranguejo, com mais de meio metro de envergadura! Um caranguejo enorme e com uma carapaça protectora como nunca imaginara!

Falou com o caranguejo gigante. Perguntou-lhe como era possível ser tão grande. O caranguejo gigante respondeu-lhe:

“Sabes, todos os caranguejos na tua colónia poderiam ser grandes como eu. Mas para ser assim grande é preciso vencer a força das ondas e ter a coragem de poder ser apanhado por uma gaivota. É preciso ter a força de vontade para não desistir e lutar contra os perigos da natureza. Mas a verdade é que a maioria dos perigos são inventados. Podemos morrer a tentar crescer ou podemos morrer na pequenez que conhecemos desde o dia que nascemos. É sempre uma escolha. Tu mesmo já estás maior que os teus familiares mais velhos, e a tua carapaça é já mais forte. Enquanto lutavas contra as ondas a Mãe Natureza deu-te o que precisavas para poder avançar: força e poder. Aqui não é mais seguro que na praia, mas as aventuras que podes ter aqui são muitas mais!”

Também nós podemos passar uma vida a queixar-nos dos perigos da vida, das vicissitudes, das mágoas, dos perigos. Podemos esconder-nos num buraco temporário enquanto aguardamos que as tormentas passem. Podemos agarrar-nos à esperança de que tudo faz parte de um processo e esperar por dias melhores. Podemos até pintar o nosso buraco em tons de rosa e fazer de conta que tudo é como deveria ser.

Mas temos sempre uma oportunidade de ignorar todos os conselhos que nos foram ditados. Podemos ser tão grandes como a Vida que corre no nosso corpo. Podemos avançar por territórios desconhecidos, seguindo os impulsos da nossa alma. E podemos descobrir que o mundo é muito maior do que alguma vez sonhámos.

De uma maneira ou de outra, iremos morrer. A escolha está entre morrer aos vinte anos e aguardar que o corpo morra também, uns anos mais tarde. Ou morrer de espanto por todos os dias ter uma experiência nova neste glorioso planeta.